| :: Todo mundo passa por fases na vida | |||||||||||||||||||||||||||||||||||
É quase uma unanimidade entre as pessoas que apenas os que possuem opinião e força de vontade conseguem deixar as drogas. Igualmente corriqueira, é a idéia de que qualquer indivíduo tem algo em seu estilo de vida que pode ser melhorado, aprimorado, enfim, mudado. Há situações muito fáceis de mudar. Um novo corte de cabelo, por exemplo. Basta procurar um profissional e pronto: novo visual. Passar a acordar mais cedo por causa de um novo emprego já é um pouco mais difícil: quem não perdeu a hora ao menos uma vez enquanto se acostumava a esse novo estilo de vida. Há, ainda, coisas na vida que por mais que incomodem, são vistas como imutáveis. Para essas há sempre aquelas respostas: "Sou assim e pronto". "Estou velho demais para mudar". | |||||||||||||||||||||||||||||||||||
| Portanto a mudança de atitude passa pela superação de automatismos ("não estou habituado a acordar cedo") e de crenças ("estou velho demais para mudar"). Sem dúvida, implementar uma mudança requer disposição e força de vontade. Ninguém muda a contragosto. Porém, a força de vontade nunca é a mesma o tempo todo. Há momentos de desânimo, desesperança, falta de sentido no desejo da mudança. É preciso ter um objetivo muito claro, saber as vantagens que essa conquista trará (elas serão maiores que as perdas?) e, sobretudo, é preciso apoio, pessoas que sabiam manter o moral elevado, que colaborem para o processo de mudança. Tudo isso tem estreita relação com a dependência química. | |||||||||||||||||||||||||||||||||||
Assumir uma mudança em meio a comportamentos cristalizados é uma tarefa complexa. A motivação para a mudança não é estável. Ela é desencadeada, mantida e estimulada pelos relacionamentos do indivíduo com os objetivos por ele traçados e com as pessoas que formam sua base de apoio. | |||||||||||||||||||||||||||||||||||
| :: Existem estágios de mudança | |||||||||||||||||||||||||||||||||||
| Não basta saber se a dependência existe e quão grave se manifesta no indivíduo. É preciso compreender também sua motivação para a mudança. Esse modelo teórico, desenvolvido por Prochaska e DiClemente (1986), auxilia o planejamento terapêutico para cada paciente. Qualquer abordagem com dependentes de drogas deve respeitar o estágio de motivação de cada um destes. São seis estágios. Para cada um deles, há uma conversa mais efetiva e adequada (quadro 1). | |||||||||||||||||||||||||||||||||||
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| O tratamento da dependência química é acima de tudo a busca de um novo estilo de vida. É uma mudança árdua, complexa, marcada por erros e escorregões. Qualquer processo de modificação comportamentos, em maior ou menor grau, é assim. Cabe à família, ao meio social e a equipe de profissionais do indivíduo motiva-lo para tal. | |||||||||||||||||||||||||||||||||||
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Motivação para a Mudança
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Dependência Química
| :: Conceito | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| Apesar de existir uma enorme variedade de explicações teóricas para as causas da dependência de álcool, nicotina e outras drogas, há um conceito unânime: dependência é uma relação alterada entre um indivíduo e seu modo de consumir uma substância. Essa relação alterada é capaz de trazer problemas para o seu usuário. Muitos indivíduos, porém, não apresentam problemas relacionados ao seu consumo. Outros apresentam problemas, mas não podem ser considerados dependentes. Por último, mesmo entre os dependentes, há diferentes níveis de gravidade. | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| :: Não é preciso ser dependente para ter problemas | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| Portanto, buscar um conceito sobre dependência a substâncias psicoativas não se completa pela constatação de sua presença ou ausência. Mais do que saber se ela está lá, é preciso identificar e determinar seu grau de desenvolvimento. Além disso, é preciso entender como os sintomas observados são moldados pela personalidade dos indivíduos e pelas influências sócio-culturais. | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| O conceito atual dos transtornos relacionados ao uso de álcool e outras drogas rejeitou a idéia da existência apenas do dependente e do não-dependente. Existem, ao invés disso, padrões individuais de consumo que variam de intensidade e gravidade ao longo de uma linha contínua (figura 3). | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| Não existe um consumo absolutamente isento de riscos. Quando este é comedido e cercado de precauções preventivas, é denominado consumo de baixo risco. Quando o indivíduo apresenta problemas sociais (brigas, faltas no emprego), físicos (acidentes) e psicológicos (heteroagressividade) relacionados estritamente àquele episódio de consumo, diz-se que tais indivíduos fazem uso nocivo da substância. | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||
Por fim, quando o consumo se mostra compulsivo e destinado à evitação de sintomas de abstinência e cuja intensidade é capaz de ocasionar problemas sociais, físicos e ou psicológicos, fala-se em dependência. | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| :: Critérios diagnósticos de uso nocivo | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), uso nocivo é "um padrão de uso de substâncias psicoativas que está causando dano à saúde", podendo ser esse de natureza física ou mental (quadro 1). A intoxicação aguda ou 'ressaca', dependendo de sua intensidade, por si só, não é considerada dano à saúde. A presença da síndrome de abstinência ou de transtornos mentais relacionados ao consumo (p.e. demência alcoólica) exclui esse diagnóstico. | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||
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Indivíduos que fazem uso nocivo não desenvolveram síndrome de abstinência, tampouco tem um padrão diário de consumo, visando a evitar sintomas de mal-estar e desconforto. No entanto, quando usam drogas se comprometem socialmente (acidentes automobilísticos ou de trabalho, brigas, faltas no emprego ou escola no dia seguinte). | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| :: Critérios diagnósticos da dependência | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| A dependência possui sinais e sintomas específicos. Portanto não se fala em intuição, tampouco em achismos quando se identifica alguém com problemas de dependência. De modo geral, há alguma perda do controle sobre o uso, associado com sintomas de abstinência e tolerância. Para evitar o surgimento de tais sintomas, os usuários passam a consumir a substância constantemente e a privilegiar o consumo a outras coisas que antes valorizava. Os sinais e sintomas da dependência serão discutidos de maneira mais detalhada nesta mesma sessão (Dependência), dentro do texto Sinais e sintomas da dependência química (quadro 2). | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||
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| Baseada nos critérios da dependência química, a Organização Mundial da Saúde (OMS) elaborou suas diretrizes diagnósticas para a síndrome de dependência de substâncias psicoativas (quadro 3). | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||
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| :: Critérios de gravidade da dependência química | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| Os critérios diagnósticos de dependência possuem níveis de gravidade distintos para cada caso. Dessa forma, após identificar a presença destes critérios no padrão de consumo de um indivíduo, o segundo passo é determinar sua gravidade. Esta análise é fundamental para individualizar o diagnóstico e coletar subsídios para o tratamento. | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||
| É importante ressaltar que qualquer diagnóstico deve ser feito por profissional especializado. | ||||||||||||||||||||||||||||||||||||
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História do álcool
Segundo alguns registros arqueológicos, os primeiros indícios do consumo de álcool pelo ser humano datam de mais de oito mil anos. No primeiro momento, as bebidas eram produzidas apenas pela fermentação e, por isso, tinham um baixo teor alcoólico. Com o desenvolvimento do processo de destilação, começaram a surgir as primeiras bebidas mais fortes e mais perigosas. Com a Revolução Industrial, a bebida passou a ser produzida em série, o que aumentou consideravelmente o número de consumidores e, por conseqüência, os problemas sociais causados pelo abuso no consumo do álcool. Quando tudo começou . . . Acredita-se que a bebida alcoólica teve origem na Pré-História, mais precisamente durante o período Neolítico quando houve a aparição da agricultura e a invenção da cerâmica. A partir de um processo de fermentação natural ocorrido há aproximadamente 10.000 anos o ser humano passou a consumir e a atribuir diferentes significados ao uso do álcool. Os celtas, gregos, romanos, egípcios e babilônios registraram de alguma forma o consumo e a produção de bebidas alcoólicas. A embriaguez de Noé Em uma das mais belas passagens do Antigo Testamento da Bíblia (Gênesis 9.21) Noé, após o dilúvio, plantou vinha e fez o vinho. Fez uso da bebida a ponto de se embriagar. Reza a bíblia que Noé gritou, tirou a roupa e desmaiou. Momentos depois seu filho Cam o encontrou "tendo à mostra as suas vergonhas". Foi a primeiro relato que se tem conhecimento de um caso de embriaguez. Michelangelo, famoso pintor renascentista (1475-1564), se inspirou nesse episódio pintar um belíssimo afresco, com esse nome, no teto da Capela Sistina, no Vaticano. Nota-se, assim, que não apenas o uso de álcool, mas também a sua embriaguez, são aspectos que acompanham a humanidade desde seus primórdios. O álcool através da história Grécia e Roma O solo e o clima na Grécia e em Roma eram especialmente ricos para o cultivo da uva e produção do vinho. Os gregos e romanos também conheceram a fermentação do mel e da cevada, mas o vinho era a bebida mais difundida nos dois impérios tendo importância social, religiosa e medicamentosa. No período da Grécia Antiga o dramaturgo grego Eurípedes (484 a.C.-406 a.C.) menciona nas Bacantes duas divindades de primeira grandeza para os humanos: Deméter, a deusa da agricultura que fornece os alimentos sólidos para nutrir os humanos, e Dionísio, o Deus do vinho e da festa (Baco para os Romanos). Apesar do vinho participar ativamente das celebrações sociais e religiosas greco-romanas, o abuso de álcool e a embriagues alcoólica já eram severamente censurados pelos dois povos. Egito Antigo Os egípcios deixaram documentado nos papiros as etapas de fabricação, produção e comercialização da cerveja e do vinho. Eles também acreditavam que as bebidas fermentadas eliminavam os germes e parasitas e deveriam ser usadas como medicamentos, especialmente na luta contra os parasitas provenientes das águas do Nilo. Idade Média A comercialização do vinho e da cerveja cresce durante este período, assim como sua regulamentação. A intoxicação alcoólica (bebedeira) deixa de ser apenas condenada pela igreja e passa a ser considerada um pecado por esta instituição. Idade Moderna Durante e Renascença passa a haver a fiscalização dos cabarés e tabernas, sendo estipulados horários de funcionamento destes locais. Os cabarés e tabernas eram considerados locais onde as pessoas podiam se manifestar livremente e o uso de álcool participa dos debates políticos que mais tarde vão desencadear na Revolução Francesa. Idade Moderna O fim do século 18 e o início da Revolução Industrial é acompanhado de mudanças demográficas e de comportamentos sociais na Europa. É durante este período que o uso excessivo de bebida passa a ser visto por alguns como uma doença ou desordem. Ainda no início e na metade do século 19 alguns estudiosos passam a tecer considerações sobre as diferenças entre as bebidas destiladas e as bebidas fermentadas, em especial o vinho. Neste sentido, Pasteur em 1865, não encontrando germes maléficos no vinho declara que esta é a mais higiênica das bebidas. Durante o século 20 paises como a França passam a estabelecer a maioridade de 18 anos para o consumo de álcool e em janeiro de 1920 o estado Americano decreta a Lei Seca que teve duração de quase 12 anos. A Lei Seca proibiu a fabricação, venda, troca, transporte, importação, exportação, distribuição, posse e consumo de bebida alcoólica e foi considerada por muitos um desastre para a saúde pública e economia americana. Foi no ano de 1952 com a primeira edição do DSM-I (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders) que o alcoolismo passou a ser tratado como doença. No ano de 1967, o conceito de doença do alcoolismo foi incorporado pela Organização Mundial de Saúde à Classificação Internacional das Doenças (CID-8), a partir da 8ª Conferência Mundial de Saúde. No CID-8, os problemas relacionados ao uso de álcool foram inseridos dentro de uma categoria mais ampla de transtornos de personalidade e de neuroses. Esses problemas foram divididos em três categorias: dependência, episódios de beber excessivo (abuso) e beber excessivo habitual. A dependência de álcool foi caracteriza pelo uso compulsivo de bebidas alcoólicas e pela manifestação de sintomas de abstinência após a cessação do uso de álcool. | ”O processo é feito com diagnóstico médico, elaborado por psiquiatra e ou clínico especialista." | |
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História da Maconha
::Aspectos históricos
A canábis é consumida pela humanidade há cerca de dez mil anos, desde a descoberta da agricultura. Era utilizada para a obtenção de fibras, óleo, sementes consumidas como alimento e por suas propriedades alucinógenas. A planta parece ser originária da China, apesar de outras evidências apontarem para a Ásia Central. O famoso Pen Tsao Ching, farmacopéia escrita em 100 d.C., baseada nas compilações de plantas com propriedades farmacológicas do imperador Shen Nung (2737 a.C.), mostrava que os chineses já conheciam há alguns milênios as propriedades alucinógenas da canábis. Nesses períodos a utilização da planta estava intrinsecamente ligada ao misticismo e ao curandeirismo. Quando os europeus chegaram a China no século XIII, tal hábito havia declinado e caído em desuso, permanecendo apenas o cultivo da planta para a obtenção de fibras têxteis.
A maconha possui grande influência sobre a cultura hindu. Segundo a tradição da Índia, a planta fora um presente dos deuses aos homens, capaz de provê-los de prazer, coragem e atender a seus desejos sexuais. A planta teria brotado pela primeira vez quando gotas do néctar dos deuses (Amrita) se derramaram sobre a Terra. Nos Himalaias indianos e no Tibet as preparações a base de canábis encontram grande importância no contexto religioso. Sadhus (homens sagrados) dedicam sua vida à deusa Shiva. Não possuem propriedade e praticam ioga e meditação. O consumo de maconha faz parte de seus rituais. Uma das preparações de maconha utilizada é o bhang, obtido a partir da maceração de brotos da planta, convertidos em um suco ou doce. A ganja consiste em brotos compactados por vários dias e fumados com tabaco ou datura. O charas é a própria resina (haxixe), fumada da mesma forma.
Durante a Antigüidade, os gregos e romanos não tiveram por hábito utilizar a maconha com propósitos alucinógenos, apesar de conhecerem tais propriedades. Dioscórides e Galeno utilizavam-na como medicamento para alguns tumores e observaram que o uso continuado era capaz de causar esterilidade masculina e inibir a produção de leite na mulher. Durante a Idade Média, a planta foi praticamente esquecida. Já o Império Islâmico conviveu com a planta e a espalhou pelas regiões conquistadas.
Durante o século XI, na região Qazwin, no atual Irã, viveu Hassan bin Sabbah, o Velho da Montanha. Estudioso do islamismo e vivendo em Alexandria (Egito), viu-se prisioneiro quando apoiou a ascensão ao trono do príncipe Nizar, no seu entender o herdeiro legítimo do califado egípcio. Conseguindo escapar do encarceramento, encontrou refúgio em Qazwin, onde ergueu seu castelo no Monte Alamut (Ninho da Águia). Fundou, então, a Ordem dos Ismaelitas de Nizar. A Ordem, destinada a apoiar o postulante ao trono e a defender os preceitos do islamismo, possuía uma disciplina militar rígida, tendo Sabbah no topo da hierarquia. Logo se tornou uma potência regional, incomodando diversos monarcas, que tentaram derruba-la em vão. Seus soldados, conhecidos como anjos destruidores, devotavam-lhe obediências e executavam qualquer comando de Sabbah, incluindo o suicídio. Para esses, Sabbah construiu o Jardim Terreno das Delícias. Após consumirem uma porção considerável de haxixe, os soldados iniciados eram levados para o jardim, povoado de animais e plantas exóticos, construções paradisíacas, alimentos refinados e virgens adolescentes, onde os desejos eram desprovidos de limites. Tal hábito fez com que Sabbah denominasse seu exército de Ordem dos Haxixins. Quando no século XI os cruzados tomaram conhecimento do poderio e dos métodos militares dos homens de Sabbah, passaram a utilizar o termo assassino (haxixim) para denominar todo indivíduo capaz de grandes atrocidades.
Somente a partir das Cruzadas (séculos XI - XIII) e das Grandes Navegações Européias (século XVI), que a maconha voltou a ser conhecida no continente. A partir do século XVIII as plantas provenientes das novas colônias começaram a ser catalogadas e estudas de maneira mais científica, sem o misticismo medieval que influenciava o conhecimento europeu até então. Com a chegada do século XIX, a Europa se vê as voltas com movimentos culturais intimistas, voltados para a busca do prazer e do individualismo, interessados no místico e no espiritual, em busca das raízes nacionais originadas na Idade Média. O mundo islâmico, agora em parte dominado por Napoleão Bonaparte, foi alvo das inspirações de pintores e poetas e o consumo de haxixe foi bastante cultuado.
Em 1845, um médico francês, J. J. Moreau de Tours e os escritores Gérard de Nerval e Téophile Gautier fundaram o Clube dos Haxixins. Participavam das reuniões mensais artistas renomados do período, tais como Charles Baudelaire, Alexandre Dumas, Eugene Delacroix e Victor Hugo. A intenção dos encontros era cultuar o consumo de haxixe, fomentar a produção artística e exaltar Hassan bin Sabbah. Todas deveriam trajar indumentárias árabes e periodicamente um dos membros era eleito o Velho da Montanha. No mesmo período, Lewis Carroll publicou o livro Alice no País das Maravilhas, povoada de imagens oníricas e de alusões ao consumo de haxixe.
A Medicina também passou a utilizar a maconha com propósitos terapêuticos a partir dessa época. As indicações voltavam-se principalmente para o tratamento da asma, tosse e doenças nervosas. A reação ao consumo da maconha e outras substâncias psicotrópicas ganharam força a partir do final do século XVIII. Nessa época, vários fenômenos contribuíram para o crescimento de uma postura contrária ao consumo de substâncias psicoativas. Relatos de complicações, tais como o surgimento de quadros depressivos e psicóticos entre os usuários de maconha, foram publicados. Nos Estados Unidos ganhava força o Movimento de Temperança, que alertava para os efeitos indesejáveis de tais substâncias (tais como a dependência) e proponha regulamentar melhor a conduta para prescreve-las. Entre a porção mais conservadora da população norte-americana, cresceram as campanhas que pregavam a proibição do comércio de todos os psicotrópicos, inclusive o álcool. Esse movimento ficou conhecido como Proibicionismo.
A partir da década de 10, diversas substâncias foram proibidas dentro do território americano. Os países da Europa e das Américas acompanharam essa tendência. Ao final da década de 30, a cocaína e maconha estavam proibidas em vários países do mundo. As vendas de morfina passaram a ser rigorosamente controladas. Nos Estados Unidos, o álcool foi proibido de 1920 a 1935. Concomitantemente, o mundo vivia as incertezas do período entre guerras e sentia o crescimento da Guerra Fria. Estados Unidos e União Soviética despontavam como as novas potências mundiais. A economia mundial ainda sentia os prejuízos causados pela Primeira Guerra Mundial. A recessão era a regra para muitos destes. A Segunda Guerra batia às portas do mundo com a ascensão do Fascismo italiano e do Nazismo alemão. Eclodiu e tomou as atenções do mundo até 1945.
Com a resolução deste conflito, o mundo passou a se preocupar com a Guerra Fria e as com a perspectiva de um conflito nuclear. Dentro desse contexto, a juventude da costa leste americana começou a buscar alternativas àquele clima repressivo e pessimista que se formou ao longo do século XX. Durante as férias, alguns jovens americanos pegavam o pouco do dinheiro que conseguiram ajuntar e punham o pé na estrada. Eles pediam carona da costa leste até a costa oeste. A famosa Route 66 foi palco de grandes aventuras nesse período. "Em julho de 1947, juntando uns 50 dólares do meu velho seguro de veterano, eu estava pronto para ir à Costa Oeste", afirma Jack Kerouac, em seu livro On the Road um dos escritores mais importantes desse movimento. Nessa época, tinha 25 anos.
Essa geração ficou conhecida como Geração Beat (beatnicks). Os beats eram uma geração de jovens em busca de alternativas. Achavam que o modelo vigente da sociedade americana falira. Queriam sentir a paz e a liberdade. Desejavam contestar os valores do American way of life a partir da tomada de novas atitudes. Eram poetas e escritores que decidiram cair na estrada e buscar novas experiências. O consumo de drogas, em especial a maconha e outros alucinógenos, foi muito utilizado por eles.
Esse não-alinhamento, de início tímido, isolado e imperceptível ganhou mais adeptos e se radicalizou: agora jovens de classe média começavam a abandonar as universidades e se refugiavam em comunidades. Desejavam viver da agricultura, fazer amor livre de regras morais e usar drogas como uma forma de contestação, uma maneira de cair fora do sistema. Tudo isso ao som de muito rock´n´roll. Nascia o Movimento Hippie dos anos sessenta e setenta.
Ao final dos anos 70 a maconha estava novamente bastante difundida em todo o Ocidente. É difícil dizer o quanto esse consumo aumentou ou declinou nos últimos trinta anos. Desde o recrudescimento do consumo, nos anos quarenta e cinqüenta, a maconha nunca mais deixou de existir nas sociedades da Europa e das Américas. A popularização do consumo fomentou a estruturação de um narcotráfico especializado na produção e distribuição dessa substância, concentrado na América do Sul e países africanos. Em 1984, a Holanda optou pela liberação do comércio e do consumo de maconha e seus derivados. A planta passou a ser legalmente vendida em estabelecimentos específicos (coffee shops). Além dissoDurante os anos oitenta e início dos anos noventa, as preocupações sobre uso de drogas voltaram-se para a cocaína e as metanfetaminas (ecstasy). Somente a partir da segunda metade da década que o tema foi recuperado e novamente colocado em discussão.
Novos estudos mostraram a existência de receptores específicos para a maconha no cérebro (receptores canabinóides) e de substâncias endógenas (anandamidas) bastantes semelhantes ao princípio ativo da maconha (delta-9-tetraidrocanabinol). A presença de sintomas de abstinência entre os usuários crônicos de maconha e o relato de complicações agudas entre os usuários (depressão, quadros psicóticos) contestaram a teoria de que se tratava de uma droga leve, incapaz de causar dependência.
Por outro lado, movimentos alinhados a legalização do consumo advogam que a substância já possui elos culturais capazes de regular seu consumo, os índices de dependência são baixos e os danos da proibição (violência e marginalidade) são mais danosos que o consumo em si. Alegam, ainda, que a planta possui propriedades medicinais e a utilização de suas fibras têxteis poderia ajudar a economia de muitos países. Alguns países como o Canadá e alguns estados norte-americanos aceitam a prescrição do tetraidrocanabinol como estimulador do apetite para portadores de câncer e AIDS. É utilizada ainda como inibidor de náuseas e vômitos para pacientes submetidos à quimioterapia.
A maconha é uma substância que ao longo de sua história suscitou (e ainda suscita) discussões ora apaixonadas, ora embasadas de ambos lados. A tensão gerada entre aqueles que defendem a proibição, o consumo médico ou a simples legalização do consumo ainda não chegou ao fim (será que um dia chegará?). Novos capítulos são aguardados. A conferir.
A canábis é consumida pela humanidade há cerca de dez mil anos, desde a descoberta da agricultura. Era utilizada para a obtenção de fibras, óleo, sementes consumidas como alimento e por suas propriedades alucinógenas. A planta parece ser originária da China, apesar de outras evidências apontarem para a Ásia Central. O famoso Pen Tsao Ching, farmacopéia escrita em 100 d.C., baseada nas compilações de plantas com propriedades farmacológicas do imperador Shen Nung (2737 a.C.), mostrava que os chineses já conheciam há alguns milênios as propriedades alucinógenas da canábis. Nesses períodos a utilização da planta estava intrinsecamente ligada ao misticismo e ao curandeirismo. Quando os europeus chegaram a China no século XIII, tal hábito havia declinado e caído em desuso, permanecendo apenas o cultivo da planta para a obtenção de fibras têxteis.
A maconha possui grande influência sobre a cultura hindu. Segundo a tradição da Índia, a planta fora um presente dos deuses aos homens, capaz de provê-los de prazer, coragem e atender a seus desejos sexuais. A planta teria brotado pela primeira vez quando gotas do néctar dos deuses (Amrita) se derramaram sobre a Terra. Nos Himalaias indianos e no Tibet as preparações a base de canábis encontram grande importância no contexto religioso. Sadhus (homens sagrados) dedicam sua vida à deusa Shiva. Não possuem propriedade e praticam ioga e meditação. O consumo de maconha faz parte de seus rituais. Uma das preparações de maconha utilizada é o bhang, obtido a partir da maceração de brotos da planta, convertidos em um suco ou doce. A ganja consiste em brotos compactados por vários dias e fumados com tabaco ou datura. O charas é a própria resina (haxixe), fumada da mesma forma.
Durante a Antigüidade, os gregos e romanos não tiveram por hábito utilizar a maconha com propósitos alucinógenos, apesar de conhecerem tais propriedades. Dioscórides e Galeno utilizavam-na como medicamento para alguns tumores e observaram que o uso continuado era capaz de causar esterilidade masculina e inibir a produção de leite na mulher. Durante a Idade Média, a planta foi praticamente esquecida. Já o Império Islâmico conviveu com a planta e a espalhou pelas regiões conquistadas.
Durante o século XI, na região Qazwin, no atual Irã, viveu Hassan bin Sabbah, o Velho da Montanha. Estudioso do islamismo e vivendo em Alexandria (Egito), viu-se prisioneiro quando apoiou a ascensão ao trono do príncipe Nizar, no seu entender o herdeiro legítimo do califado egípcio. Conseguindo escapar do encarceramento, encontrou refúgio em Qazwin, onde ergueu seu castelo no Monte Alamut (Ninho da Águia). Fundou, então, a Ordem dos Ismaelitas de Nizar. A Ordem, destinada a apoiar o postulante ao trono e a defender os preceitos do islamismo, possuía uma disciplina militar rígida, tendo Sabbah no topo da hierarquia. Logo se tornou uma potência regional, incomodando diversos monarcas, que tentaram derruba-la em vão. Seus soldados, conhecidos como anjos destruidores, devotavam-lhe obediências e executavam qualquer comando de Sabbah, incluindo o suicídio. Para esses, Sabbah construiu o Jardim Terreno das Delícias. Após consumirem uma porção considerável de haxixe, os soldados iniciados eram levados para o jardim, povoado de animais e plantas exóticos, construções paradisíacas, alimentos refinados e virgens adolescentes, onde os desejos eram desprovidos de limites. Tal hábito fez com que Sabbah denominasse seu exército de Ordem dos Haxixins. Quando no século XI os cruzados tomaram conhecimento do poderio e dos métodos militares dos homens de Sabbah, passaram a utilizar o termo assassino (haxixim) para denominar todo indivíduo capaz de grandes atrocidades.
Somente a partir das Cruzadas (séculos XI - XIII) e das Grandes Navegações Européias (século XVI), que a maconha voltou a ser conhecida no continente. A partir do século XVIII as plantas provenientes das novas colônias começaram a ser catalogadas e estudas de maneira mais científica, sem o misticismo medieval que influenciava o conhecimento europeu até então. Com a chegada do século XIX, a Europa se vê as voltas com movimentos culturais intimistas, voltados para a busca do prazer e do individualismo, interessados no místico e no espiritual, em busca das raízes nacionais originadas na Idade Média. O mundo islâmico, agora em parte dominado por Napoleão Bonaparte, foi alvo das inspirações de pintores e poetas e o consumo de haxixe foi bastante cultuado.
Em 1845, um médico francês, J. J. Moreau de Tours e os escritores Gérard de Nerval e Téophile Gautier fundaram o Clube dos Haxixins. Participavam das reuniões mensais artistas renomados do período, tais como Charles Baudelaire, Alexandre Dumas, Eugene Delacroix e Victor Hugo. A intenção dos encontros era cultuar o consumo de haxixe, fomentar a produção artística e exaltar Hassan bin Sabbah. Todas deveriam trajar indumentárias árabes e periodicamente um dos membros era eleito o Velho da Montanha. No mesmo período, Lewis Carroll publicou o livro Alice no País das Maravilhas, povoada de imagens oníricas e de alusões ao consumo de haxixe.
A Medicina também passou a utilizar a maconha com propósitos terapêuticos a partir dessa época. As indicações voltavam-se principalmente para o tratamento da asma, tosse e doenças nervosas. A reação ao consumo da maconha e outras substâncias psicotrópicas ganharam força a partir do final do século XVIII. Nessa época, vários fenômenos contribuíram para o crescimento de uma postura contrária ao consumo de substâncias psicoativas. Relatos de complicações, tais como o surgimento de quadros depressivos e psicóticos entre os usuários de maconha, foram publicados. Nos Estados Unidos ganhava força o Movimento de Temperança, que alertava para os efeitos indesejáveis de tais substâncias (tais como a dependência) e proponha regulamentar melhor a conduta para prescreve-las. Entre a porção mais conservadora da população norte-americana, cresceram as campanhas que pregavam a proibição do comércio de todos os psicotrópicos, inclusive o álcool. Esse movimento ficou conhecido como Proibicionismo.
A partir da década de 10, diversas substâncias foram proibidas dentro do território americano. Os países da Europa e das Américas acompanharam essa tendência. Ao final da década de 30, a cocaína e maconha estavam proibidas em vários países do mundo. As vendas de morfina passaram a ser rigorosamente controladas. Nos Estados Unidos, o álcool foi proibido de 1920 a 1935. Concomitantemente, o mundo vivia as incertezas do período entre guerras e sentia o crescimento da Guerra Fria. Estados Unidos e União Soviética despontavam como as novas potências mundiais. A economia mundial ainda sentia os prejuízos causados pela Primeira Guerra Mundial. A recessão era a regra para muitos destes. A Segunda Guerra batia às portas do mundo com a ascensão do Fascismo italiano e do Nazismo alemão. Eclodiu e tomou as atenções do mundo até 1945.
Com a resolução deste conflito, o mundo passou a se preocupar com a Guerra Fria e as com a perspectiva de um conflito nuclear. Dentro desse contexto, a juventude da costa leste americana começou a buscar alternativas àquele clima repressivo e pessimista que se formou ao longo do século XX. Durante as férias, alguns jovens americanos pegavam o pouco do dinheiro que conseguiram ajuntar e punham o pé na estrada. Eles pediam carona da costa leste até a costa oeste. A famosa Route 66 foi palco de grandes aventuras nesse período. "Em julho de 1947, juntando uns 50 dólares do meu velho seguro de veterano, eu estava pronto para ir à Costa Oeste", afirma Jack Kerouac, em seu livro On the Road um dos escritores mais importantes desse movimento. Nessa época, tinha 25 anos.
Essa geração ficou conhecida como Geração Beat (beatnicks). Os beats eram uma geração de jovens em busca de alternativas. Achavam que o modelo vigente da sociedade americana falira. Queriam sentir a paz e a liberdade. Desejavam contestar os valores do American way of life a partir da tomada de novas atitudes. Eram poetas e escritores que decidiram cair na estrada e buscar novas experiências. O consumo de drogas, em especial a maconha e outros alucinógenos, foi muito utilizado por eles.
Esse não-alinhamento, de início tímido, isolado e imperceptível ganhou mais adeptos e se radicalizou: agora jovens de classe média começavam a abandonar as universidades e se refugiavam em comunidades. Desejavam viver da agricultura, fazer amor livre de regras morais e usar drogas como uma forma de contestação, uma maneira de cair fora do sistema. Tudo isso ao som de muito rock´n´roll. Nascia o Movimento Hippie dos anos sessenta e setenta.
Ao final dos anos 70 a maconha estava novamente bastante difundida em todo o Ocidente. É difícil dizer o quanto esse consumo aumentou ou declinou nos últimos trinta anos. Desde o recrudescimento do consumo, nos anos quarenta e cinqüenta, a maconha nunca mais deixou de existir nas sociedades da Europa e das Américas. A popularização do consumo fomentou a estruturação de um narcotráfico especializado na produção e distribuição dessa substância, concentrado na América do Sul e países africanos. Em 1984, a Holanda optou pela liberação do comércio e do consumo de maconha e seus derivados. A planta passou a ser legalmente vendida em estabelecimentos específicos (coffee shops). Além dissoDurante os anos oitenta e início dos anos noventa, as preocupações sobre uso de drogas voltaram-se para a cocaína e as metanfetaminas (ecstasy). Somente a partir da segunda metade da década que o tema foi recuperado e novamente colocado em discussão.
Novos estudos mostraram a existência de receptores específicos para a maconha no cérebro (receptores canabinóides) e de substâncias endógenas (anandamidas) bastantes semelhantes ao princípio ativo da maconha (delta-9-tetraidrocanabinol). A presença de sintomas de abstinência entre os usuários crônicos de maconha e o relato de complicações agudas entre os usuários (depressão, quadros psicóticos) contestaram a teoria de que se tratava de uma droga leve, incapaz de causar dependência.
Por outro lado, movimentos alinhados a legalização do consumo advogam que a substância já possui elos culturais capazes de regular seu consumo, os índices de dependência são baixos e os danos da proibição (violência e marginalidade) são mais danosos que o consumo em si. Alegam, ainda, que a planta possui propriedades medicinais e a utilização de suas fibras têxteis poderia ajudar a economia de muitos países. Alguns países como o Canadá e alguns estados norte-americanos aceitam a prescrição do tetraidrocanabinol como estimulador do apetite para portadores de câncer e AIDS. É utilizada ainda como inibidor de náuseas e vômitos para pacientes submetidos à quimioterapia.
A maconha é uma substância que ao longo de sua história suscitou (e ainda suscita) discussões ora apaixonadas, ora embasadas de ambos lados. A tensão gerada entre aqueles que defendem a proibição, o consumo médico ou a simples legalização do consumo ainda não chegou ao fim (será que um dia chegará?). Novos capítulos são aguardados. A conferir.
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História da Cocaína
A cocaína é consumida pela humanidade há pelo menos cinco mil anos. (Escohotado, 1996). Porém, a planta da qual a substância é proveniente, a coca, natural dos altiplanos andinos, já era utilizada por civilizações pré-incaicas florescidas no século X a.C. (Escohotado, 1996; Johanson, 1988). A origem etimológica da palavra 'coca' provém da língua aymara e significa "planta" ou "arbusto" (Escohotado, 1996). Para as civilizações pré-incaicas, a planta deu poderes aos homens para vencerem um deus maligno e os incas entendiam que a 'Mama Coca', tal como a denominavam, fora um presente dos deuses para que os homens, ao mascar suas folhas, pudessem suportar a fome e a fadiga (Escohotado, 1996). O consumo das folhas era um privilégio da nobreza e sua utilização por soldados, mensageiros e camponeses, salvo autorização real expressa, era considerado crime de lesa majestade (Escohotado, 1996). Os nativos andinos não sabiam extrair das folhas o princípio ativo, mas aprenderam a conserva-lo, misturando à planta substâncias alcalinas (cal) (Johanson, 1988).
Apesar de levada ao conhecimento europeu já nos primeiros anos da colonização espanhola, por Américo Vespúcio (1505), Fernandez de Oviedo (1535) e Nicholas Monardes (1565) (Karch, 1998), as folhas de coca não conseguiram popularidade nesse continente até o século XIX (provavelmente devido à deterioração da planta durante o transporte), permanecendo um costume indígena exclusivo até então (Grinspoon et al, 1985; Johanson, 1988). A primeira publicação científica sobre o assunto, no entanto, apareceu na revista Institutiones Medicae, escrita por Herman Boerhaave, em 1708 (The Vaults of Erowid, 2001).
O interesse europeu pelas propriedades farmacológicas da folha de coca apareceu com efusividade na virada para o século XIX: eminentes botânicos, farmacologistas e médicos da primeira metade do século atribuíram-lhe denominações tais como "tesouro da matéria médica", "saudável e condutora da longevidade", "evocadora da potência do organismo, sem deixar sinal algum de debilidade conseqüente" (Escohotado, 1996). Opositores da euforia causada pela descoberta da substância já eram encontrados nesse período, comparavam a coca ao ópio e alertavam para o potencial uso abusivo da mesma (Grinspoon et al, 1985; Escohotado, 1996).
A medicina adotou definitivamente a substância após a obtenção do princípio ativo puro, isolado por Albert Niemann, em 1859 (Karch, 1998). Antes, em 1855, o químico Gaedecke já havia extraído um resíduo oleoso das folhas de coca, ao qual denominou eritroxilina (Johanson, 1988). As indicações da cocaína para o tratamento das farmacodependências, como estimulante incapaz de danos secundários, ideal para exaltar o humor, espantar a depressão e "deixar as damas plenas de vivacidade e charme", foram publicadas nas principais revistas médicas da época, na Europa e nos Estados Unidos (Escohotado, 1996). Suas propriedades anestésicas foram utilizadas no tratamento de dores de dente e garganta, em bloqueios anestésicos e abriu uma nova fronteira nas cirurgias oftalmológicas (Karch, 1998). Era utilizada pelas vias oral, inalatória ou por meio de injeções intradérmicas (Escohotado, 1996).
Os primeiros produtos comerciais da substância começaram a surgir no início da segunda metade do século XIX (Escohotado, 1996; Karch, 1998). Tais produtos consistiam em infusões revigoradoras de folhas de coca, pastilhas para aliviar dores dentárias, tônicos e bebidas, alcóolicas e não-alcóolicas, que recebiam cocaína em sua composição. Duas bebidas atingiram grande notabilidade: o Vinho de Coca Mariani, produzido pelo médico corso que batizou com seu sobrenome a bebida e a Coca-Cola, do boticário norte-americano J. S. Pemberton, que a vendia para o combate à cefaléia e como tonificante. Com o advento da Lei Seca, Pemberton substituiu o álcool da fórmula por noz de cola (continente de cafeína), gaseificou a água e anunciou-a como "a bebida dos intelectuais e abstêmios" (Escohotado, 1996). Uma garrafa de 6 onças da bebida continha, em média, 2 miligramas de cocaína (Spillane, 1999). Em 1909, havia nos Estados Unidos 69 tipos de bebidas que continham cocaína em sua fórmula (Escohotado, 1996).
Entre 1880 e 1884 o Therapeutic Gazzette publicou 16 relatos de cura da dependência do ópio pela cocaína (Grinspoon et al, 1985). Mas foi a monografia de Sigmund Freud, Über Coca, em 1884, que sintetizou aquilo que vinha sendo falado e escrito pela comunidade científica nas últimas décadas. O trabalho do então desconhecido cientista, exaltava a capacidade da substância de exaltar o humor, combater o 'morfinismo' e o 'alcoolismo', transtornos gástricos, caquexia e a asma, além de ser afrodisíaco e anestésico local. Em artigos subseqüentes, considerou improvável a existência de uma dose letal para a substância e colocou suas experiências com a mesma no tratamento da histeria e hipocondria (Escohotado, 1996).
Dois laboratórios, Merck (1862) e Parke Davis (1870), passaram a comercializar a cocaína e dirigiram-na à classe médica na forma apresentações tais como extratos fluídos, vinhos, oleatos e salicilatos, inaladores, sprays nasais e cigarros contendo a cocaína em suas composições (Grinspoon et al, 1985; Johanson, 1988; Escohotado, 1996). Numa de suas campanhas, a Parke Davis publicou aos médicos: "Esperamos que seja mais freqüente a aplicação dos maravilhosos efeitos da cocaína na terapêutica geral, dos quais destacamos a melhora do estado de ânimo, o aumento das faculdades físicas e mentais, assim como o aumento da resistência ao esforço [...] Seria uma lástima que tão destacadas propriedades não fossem exploradas" (Escohotado, 1996). Nessa época, o cultivo da planta foi levado para colônias inglesas, tais como Jamaica, Madagascar, Camarões, Índia, Ceilão (atual Sri Lanka) e especialmente Java (Grinspoon, 1985; Negrete, 1992).
A reação ao tratamento de panacéia dispensado à cocaína, embora presente desde o início do século XIX, só ganhou relevância no final desse (Spillane, 1999). Sintomas psicóticos e depressivos, insônia e relatos de abuso e dependência, onde o consumo era classificado por seus usuários como uma 'tentação irresistível' golpearam os elogios incondicionais que a substância vinha recebendo até aquele período (Escohotado, 1996). Por volta de 1890, pelo menos 400 casos agudos ou crônicos de danos físicos e psíquicos relacionados à cocaína já haviam sido publicados na literatura médica (Grinspoon et al, 1985). Em 1901 a Coca-Cola retirou a cocaína de sua fórmula (Karch, 1998). Emil Kraepelin (1902), durante uma conferência para clínicos da Universidade de Heidelberg, ao falar sobre a importância do papel do médico para "a prevenção e o alívio da interminável miséria causada pela doença mental", apontou o alcoolismo, a sífilis e o abuso da morfina e da cocaína, como "os mais importantes pontos de ataque". Por volta de 1905, o consumo inalado da cocaína já era bastante difundido nos E.U.A. e o primeiro caso de lesão da mucosa nasal foi publicado pela literatura médica em 1910 (Karch, 1998). As sociedades médicas, no início partidárias, e depois convertidas em ferozes opositoras da cocaína, passaram a criticar a venda da cocaína pela indústria farmacêutica, afirmando que esses haviam promovido a substância de uma maneira irresponsável e não-científica (Spillane, 1999) .
A partir da segunda década do século XX, observou-se um declínio no consumo da cocaína nos Estados Unidos e na Europa até atingir níveis insignificantes. Para tal, alguns fenômenos foram determinantes: o fortalecimento do puritanismo e da ideologia proibicionista nos Estados Unidos, culminado no aparecimento de leis restritivas e punitivas (Harrison Narcotics Act, 1914; Boggs Act, 1951; Narcotics Control Act, 1956), que baniram a cocaína e a heroína do mercado livre, controlaram as importações desses produtos, perseguiram os médicos que prescreviam tais substâncias e fecharam várias clínicas para tratamento de dependentes (Escohotado, 1996). A depressão econômica que se estendeu até os anos 40, deixando menos dinheiro para gastos supérfluos (Grinspoon et al, 1985). O surgimento, na Europa, de medidas socio-educativas e de saúde pública, visando à prevenção e ao tratamento desses pacientes (Escohotado, 1996). E por fim, a anfetamina, um novo e potente estimulante de longa duração, foi sintetizada em 1932. A substância não possuía qualquer restrição punitiva por parte dos estados nacionais, era barata e parece ter substituído o consumo de cocaína em alguma proporção (Johanson, 1988).
Alguns fatores são apontados como contribuintes para o recrudescimento do consumo de cocaína e heroína no início dos anos 70: o aparato repressivo montado pelo Estado norte-americano concentrava seus esforços no combate à maconha e ao LSD, permitindo que outras substâncias fossem introduzidas no país (Escohotado, 1996). A partir de 1973, o consumo de anfetamina passou a ser controlado, deixando um universo de consumidores carentes de uma substância com as mesmas propriedades (Johanson, 1988). Os movimentos contraculturais beat e hippie, dos anos 50 e 60, além de entenderem a experiência com substâncias psicoativas como uma forma percepção, contestação e saída do sistema autoritário em que viviam as nações da Guerra Fria (tune in, turn on and drop out), contribuíram para a modificação dos valores autoritários da classe média e para a aproximação com os setores marginalizados da sociedade (negros, homossexuais, loucos enclausurados e bandidos) (OSAP, 1991; Escohotado, 1996). Durante o seu ressurgimento, a cocaína era considerada uma 'droga leve', incapaz de causar sintomas de dependência física e por isso foi pouco visada num primeiro momento (OMS, 1975; OSAP, 1991). O narcotráfico colombiano se profissionalizou a partir dos anos 70 (Uprimny, 1997). Utilizando sua experiência anterior no contrabando de ouro e esmeraldas e aproveitando as conexões existentes para a distribuição da maconha, introduziu crescentes quantidades de cocaína em território norte-americano, aumentando a disponibilidade e reduzindo posteriormente o preço do produto (The Economist, 2001).
Desse modo, a cocaína se apresentou aos anos 80 como um estimulante relativamente inócuo e eminentemente urbano (Grinspoon et al, 1985). O alto custo inicial da substância, seu snob appeal e reputação de 'droga das elites' conferiram-lhe uma imagem de algo desejável (Grinspoon, 1985). O estilo de vida de uma nova geração, nascida durante os anos efervescentes do movimento hippie, mas ideologicamente oposta a esse, estava associado à cocaína : essa geração ficou conhecida como yuppies (young urban professionals) (American Heritage Dictionary, 2000). Jovens profissionais bem sucedidos e totalmente integrados ao sistema de produção vigente, possuíam empregos invejáveis e sob medida para workarolics e identificavam-se com os ícones do consumismo (Grinspoon, 1985). O consumo de cocaína inalada era visto como provedor de energia, auto-estima e ambição social, atributos essenciais para esses jovens executivos (Gold, 1993).
O consumo de cocaína atravessou os anos 80 popularizando-se. Atingiu extratos sociais mais baixos, faixas etárias cada vez menores (Escohotado, 1996) e preços mais acessíveis, chegando a custar 250% menos, no final da década (The Economist, 2001). O narcotráfico colombiano, responsável pela produção e distribuição da cocaína pelo mundo, atingiu níveis avançados de organização e notoriedade internacional (Shannon, 1991; Morganthau et al, 1991). No final dos anos 80, era responsável por 80% da cocaína distribuída nos Estados Unidos e faturava cerca de 200 bilhões de dólares anuais (Arbex, 1996). Nesse contexto de popularização, uma nova apresentação da substância surgiu em território norte-americano, após um período embrionário na América do Sul. Foi denominado crack e seu impacto sobre a cultura norte-americana e mundial gerou grande interesse por parte da mídia e da comunidade científica.
O hábito de fumar a pasta de folhas de coca era praticamente desconhecido na América do Sul antes dos anos 70 (Negrete, 1992). A partir dessa época, começou a ganhar popularidade no Peru, espalhando-se para os outros países produtores no decorrer da década (Maass et al, 1990). Nos Estados Unidos, o uso da pasta de coca foi descrito pela primeira vez em 1974, numa comunidade restrita da Califórnia (Wallace, 1991) e atingiu alguma popularidade no final da década (Siegel, 1987, Wallace, 1991; Morgan et al, 1997). A pasta básica de coca (sulfato de cocaína) é obtida por meio da maceração ou pulverização das folhas de coca com solvente (álcool, benzina, parafina ou querosene), ácido sulfúrico e carbonato de sódio (Maass et al, 1990; Escohotado, 1996). Desde os primeiros relatos, chamava a atenção dos pesquisadores a intensidade e a curta duração dos sintomas de euforia, seu preço muito inferior ao da cocaína refinada, as impurezas do amálgama e o 'microtráfico' feito pelo usuário para a manutenção do próprio consumo (Maass et al, 1990). A pasta básica era chamada nos países andinos de basuco, evocando a natureza da mistura (alcalina) e a potência de seus efeitos psicotrópicos (bazuca) (Negrete, 1985). Essa experiência, inicialmente restrita à América Andina, foi considerada por alguns autores como a precursora do surgimento do crack nos Estados Unidos (Hamid, 1991a; Ellenhorn et al, 1997; Reinarman, 1997).
O crack surgiu entre 1984 e 1985 nos bairros pobres de Los Angeles, Nova York e Miami, habitados principalmente por negros ou hispânicos e acometidos por altos índices de desemprego (Del Roio, 1997, Reinarman, 1997). Era obtido de um modo simples e passível de fabricação caseira (Ellenhorn et al, 1997) e utilizados em grupo, dentro de casas com graus variados de abandono e precariedade (crack houses) (Geter, 1994). Os cristais eram fumados em cachimbos e estralavam (cracking) quando expostos ao fogo, característica que lhes conferiu o nome (Ellenhorn et al, 1997). A utilização produzia uma euforia de grande magnitude e de curta duração, seguida de intensa fissura e desejo de repetir a dose (OSAP, 1991). O perfil inicial desses consumidores, eminentemente jovem, era o seguinte (Hamid, 1991b): usuários de cocaína refinada, atraídos inicialmente pelo baixo preço do crack, usuários de maconha e poliusuários, que adicionaram o crack ao seu padrão de consumo e aqueles que adotaram o crack como sua primeira substância. Juntaram-se a essa população, usuários endovenosos de cocaína, geralmente mais velhos, que após o advento da AIDS, optaram pelo crack em busca de vias de administração mais seguras, sem prejuízo na intensidade dos efeitos (Dunn et al, 1999b). O baixo preço da substância também atraiu novos consumidores, de estratos sociais mais baixos, que pagavam por dose consumida e por isso faziam inúmeras transações (Blumstein et al, 2000). No entanto, sua pureza, algumas vezes inferior, a curta duração dos efeitos e a compulsão por novas doses, por vezes produziam um gasto mensal superior ao efetuado com a cocaína refinada (Caulkins et al, 1997; Ferri, 1999).
O crack modificou profundamente a economia doméstica do tráfico drogas, bem como seu modo de atuação. Hamid (1991a, 1991b) relata que antes do aparecimento do crack em Nova Iorque, a distribuição de substâncias era feita por grupos de minorias étnicas culturalmente coesas, fazendo seus lucros circularem dentro daquela comunidade, na forma de bens e serviços. Com a chegada do crack e seu padrão compulsivo de uso, a busca por divisas voltou-se para a obtenção de mais substância, em detrimento da comunidade onde o comércio se dava. Além disso, um importante paradigma, a separação entre vendedor e consumidor, foi abandonado: os consumidores assumiram papeis na distribuição e muitos traficantes viram-se dependentes do crack. A partir daí surgiu um novo modo para a distribuição: atomizado e executado por jovens e suas gangues, porém fortemente organizado e hierarquizado, onde cada um exercia um papel específico.
O ambiente de violência e criminalidade pronunciado, pode ser explicado por alguns fatores. O novo negócio fomentou competitividade entre os grupos (Hamid, 1991a, Blumstein et al, 2000). Era comandado por adolescentes marginalizados e excluídos do mercado de trabalho, sem outra perspectiva econômica (Morgan et al, 1997; Blumstein et al, 2000), naturalmente mais imaturos e impulsivos e muitas vezes dependentes da substância (Hamid, 1991b, Blumstein et al, 2000). O comércio do crack causou deterioração e desestabilização econômica de bairros, onde as vendas se concentravam, associado à falta da presença do Estado como provedor de políticas sociais e de segurança, atuando exclusivamente como agente repressor e estigmatizador do tráfico e seus usuários (Hatsukami, 1996). O fácil acesso a armas de fogo cada vez mais poderosas (Hatsukami, 1996), fez dessas o principal meio para os membros das gangues garantirem autoproteção, resolverem as disputas de mercado, defenderem os produtos e ativos ilegais, além de lhes conferirem status e poder na comunidade onde atuavam (Blumstein et al, 2000). O caráter abusivo e compulsivo do consumo do crack, gerador de fissura e busca desenfreada por uma nova dose (Gossop et al, 1994; Hatsukami et al, 1996). A chegada do comércio do ilegal do crack catalisou e amplificou déficits sociais latentes, que apareceram sob a forma de comportamentos violentos, tais como venda de objetos pessoais, furtos, roubos, disputa de gangues, assassinatos e prostituição (Hamid, 1991a).
A presença do crack começou a ser relatada em outros países no final dos anos 80 (figura 1.1 e figura 1.2). A Espanha é tida a porta de entrada do tráfico de cocaína e haxixe na Europa (OGD, 2000). O país vem detectando a presença crescente da cocaína, principalmente na camada jovem da população (Bosch, 2000). O crack é mais prevalente na região sul do país (Sevilha), decrescendo, gradativamente, até alcançar as cidades do Norte (Barcelona) (Barrio et al, 1998). Portugal e França apresentam índices insignificantes de consumo de cocaína, em termos de saúde pública, além de não fazerem menções sobre o crack (EMCDDA, 1999). A Itália (EMCDDA, 2000) detectou a presença do crack entre minorias de imigrantes (senegaleses), envolvidos no mercado do tráfico e habitando áreas marginalizadas. O consumo, restrito às minorias imigrantes, apresentou algum aumento entre os italianos. No Reino Unido, o crack surgiu em bairros pobres e marginalizados, habitado por minorias de imigrantes, causando disputas de espaço pela distribuição e criminalidade (Bean, 1993; Ditton, 1993; Pearson, 1993, Shapiro, 1993). A substância era relativamente conhecida pelo público jovem (Denham, 1995) e passou a ser utilizada por boa parte dos antigos usuários de cocaína (Strang et al, 1990), com predomínio maior entre os negros caribenhos (Gossop et al, 1994). Recentemente, a imprensa (Police crack down..., 2001) noticiou um aumento do consumo. A Alemanha (EMCDDA, 2000) observou a chegada do crack a partir da primeira metade dos anos 90. Produzido artesanalmente e para consumo próprio, no início, o crack é hoje mais prevalente que a cocaína naquele país, com grande penetrância entre os usuários de heroína. A Holanda parece não ter sentido a presença do crack até 1993 (Cohen, 1997), permanecendo restrito a minorias de imigrantes do Suriname (Cohen, 1995). Em 1998 o consumo de cocaína não-injetável (cocaína refinada e crack) era considerado tão prevalente quanto de heroína (Ameijden et al, 2001). Os países escandinavos (EMCDDA, 1999) têm grande predileção pelas anfetaminas, a substância mais consumida naqueles países, após a maconha (1-3%). Não há relatos sobre o crack nesses países.
Figura 1.1 - Prevalência do consumo mundial de cocaína, países produtores e principais rotas de tráfico
Fonte: UNODCCP. Global Illicit Drug Trends; 2001.
Um padrão insignificante de consumo de cocaína foi observado nos países do Leste Europeu, sem referências à presença do crack (UNODCCP, 2001).
Na Austrália, o crack parece ter causado pouca ou nenhuma repercussão (Mugford, 1997). O consumo de cocaína, no entanto, vem aumentando desde o início dos anos 90, apesar dos baixos índices (1,4%). Já nos países asiáticos, tais como Japão, China e Filipinas o consumo de estimulantes se dá preferencialmente com as anfetaminas, não havendo espaço para congêneres (NIDA, 1999; NIDA, 2001). Algum sinal do crack e drogas sintéticas (club drugs) tem sido detectado na Índia, em substituição ao consumo local de mandrax (OGD, 2000). A África do Sul é o maior mercado consumidor de cocaína do continente africano (OGD, 2000). Começou a sentir a presença do crack por volta de 1993, com índices crescentes de consumo, principalmente nas zonas miseráveis de Joanesburgo (Jeter, 2000). Os últimos relatos, no entanto, apontam para a estabilização ou mesmo redução do consumo nesse país (NIDA, 2001).
Figura 1.2 - Comportamento do consumo mundial de cocaína em 1999
Fonte: UNODCCP. Global Illicit Drug Trends; 2001.
Há poucas informações sobre a chegada do crack ao Brasil, em sua maioria provenientes da imprensa leiga ou de órgãos policiais. A apreensão de crack, realizada pela Polícia Federal, entre 1993-1997, aumentou 166 vezes (Procópio, 1999). A apreensão de pasta básica, no mesmo período e considerada por região, apresentou níveis decrescentes, excetuando-se a região sudeste, onde aumentou 5,2 vezes (Procópio, 1999). A cidade de São Paulo foi a mais atingida. A primeira apreensão da substância no município registrada nos arquivos da Divisão de Investigações sobre Entorpecentes (DISE), aconteceu em 1990 (Uchôa, 1996). Algumas evidências apontam para o surgimento da substância em bairros da Zona Leste da cidade (São Mateus, Cidade Tiradentes e Itaim Paulista), para em seguida alcançar a região da Estação da Luz (conhecida como "Cracolândia"), no centro (Uchôa, 1996). A partir daí espalhou-se para vários pontos da cidade, estimulado pelo ambiente de exclusão social (Uchôa, 1996) e pela repressão policial no centro da cidade (Dimenstein, 1999). O preço do crack, apesar de similar ao da cocaína refinada em termos de unidade de peso, possuía apresentações para o varejo que variavam de 1,00 a 50,00 reais, tornando-o acessível para uma faixa grande de consumidores (Dunn et al, 1998). Além disso, parece ter havido uma redução na oferta de outras drogas (Nappo et al, 1994). Procópio (1999), a partir de uma revisão em jornais de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, apresentou algumas considerações sobre o esquema de distribuição. Entre essas, figuram a ascensão de indivíduos cada vez mais jovens ao comando do tráfico, fragmentado e organizado em bandos (gangues), com divisão de tarefas ("dono da bocada", "chefe da distribuição", "avião", "fogueteiro") e normas rígidas de disciplina e punição, com alta prevalência de armas de fogo, caracterizando uma conduta marcadamente violenta, em decorrência da competição por espaço na distribuição e para fazer frente ao esquema de repressão ao tráfico. Apesar de desenhado a partir de dados parciais e em sua maioria sem sistematização científica, o panorama observado guarda semelhanças com a presença do crack em outros países.
Não há informações amplas sobre a evolução do consumo de crack no Brasil. Um importante fenômeno observado aqui (Dunn et al, 1996; Dunn et al, 1999b) e em outros países (Gossop et al, 1994; Barrio et al, 1998; Ameijden et al, 2001), durante os anos 90, foi a transição de vias de administração entre os usuários de cocaína. Tal fenômeno caracteriza-se pela substituição da via de administração, por meio da qual um indivíduo se iniciou no consumo de alguma substância, por uma nova via, que passa a ter sua predileção (Dunn et al, 1999b). Quanto às drogas injetáveis no Brasil, cocaína é praticamente a única substância utilizada (Carvalho et al, 2000; Seibel et al, 2000), tendo em vista a presença irrelevante de heroína no país (Dunn et al, 1999b; Carvalho et al, 2000). Até o final dos anos 80 o padrão inicial de consumo de cocaína era feito principalmente pela via intranasal e em menor proporção, pela via injetável (Dunn et al, 1999b). Nos países europeus, o consumo inicial de heroína dava-se principalmente pela via injetável (Gossop et al, 1994; Barrio et al, 1998; Ameijden et al, 2001). Após esse período, verificou-se um aumento daqueles que iniciavam seu consumo pela forma inalatória, em detrimento da injetável (Gossop et al, 1994; Dunn et al, 1999b, Kuebler, 2000; Ameijden et al, 2001). Uma porção dos usuários que utilizavam as vias injetável e intranasal migraram para a via inalatória, ao passo que essa foi a que menos perdeu adeptos (Dunn et al, 1999b). Alguns fatores influenciaram essa transformação: a severidade e o tempo prolongado de consumo de cocaína, o baixo preço e a disponibilidade do crack e a percepção crescente dos riscos associados ao modo injetável (HIV) (Dunn et al, 1999b).
Nos últimos anos, instituições ligadas à infância e a imprensa vêm notando uma redução do consumo em São Paulo (Dimenstein, 2000). Notícias sobre as apreensões de substâncias psicoativas pela polícia, mostraram um aumento expressivo das apreensões de maconha (507%) e discreto com relação à cocaína e crack (10%) (Apreensão de maconha..., 2001; Maconha, cocaína..., 20001). Os mesmos artigos também observaram a redução da procura por tratamento na rede pública municipal entre esses indivíduos. Tais informações, apesar de sugerirem uma diminuição do consumo devem ser analisadas com cautela: a redução nas apreensões policiais pode tanto significar uma queda do consumo, como também decorrer do surgimento de esquemas mais protegidos de tráfico, adaptados ao esquema de repressão, inclusive por meio da corrupção desse (Bean et al, 1993). A queda na procura por atendimento pode ser resultado de um redirecionamento da demanda para outras opções de tratamento. Dessa forma, o consumo do crack vem apresentando comportamentos de queda e ascensão em diversos países (figura 1.2), com desdobramentos futuros ainda incertos.
Apesar de levada ao conhecimento europeu já nos primeiros anos da colonização espanhola, por Américo Vespúcio (1505), Fernandez de Oviedo (1535) e Nicholas Monardes (1565) (Karch, 1998), as folhas de coca não conseguiram popularidade nesse continente até o século XIX (provavelmente devido à deterioração da planta durante o transporte), permanecendo um costume indígena exclusivo até então (Grinspoon et al, 1985; Johanson, 1988). A primeira publicação científica sobre o assunto, no entanto, apareceu na revista Institutiones Medicae, escrita por Herman Boerhaave, em 1708 (The Vaults of Erowid, 2001).
O interesse europeu pelas propriedades farmacológicas da folha de coca apareceu com efusividade na virada para o século XIX: eminentes botânicos, farmacologistas e médicos da primeira metade do século atribuíram-lhe denominações tais como "tesouro da matéria médica", "saudável e condutora da longevidade", "evocadora da potência do organismo, sem deixar sinal algum de debilidade conseqüente" (Escohotado, 1996). Opositores da euforia causada pela descoberta da substância já eram encontrados nesse período, comparavam a coca ao ópio e alertavam para o potencial uso abusivo da mesma (Grinspoon et al, 1985; Escohotado, 1996).
A medicina adotou definitivamente a substância após a obtenção do princípio ativo puro, isolado por Albert Niemann, em 1859 (Karch, 1998). Antes, em 1855, o químico Gaedecke já havia extraído um resíduo oleoso das folhas de coca, ao qual denominou eritroxilina (Johanson, 1988). As indicações da cocaína para o tratamento das farmacodependências, como estimulante incapaz de danos secundários, ideal para exaltar o humor, espantar a depressão e "deixar as damas plenas de vivacidade e charme", foram publicadas nas principais revistas médicas da época, na Europa e nos Estados Unidos (Escohotado, 1996). Suas propriedades anestésicas foram utilizadas no tratamento de dores de dente e garganta, em bloqueios anestésicos e abriu uma nova fronteira nas cirurgias oftalmológicas (Karch, 1998). Era utilizada pelas vias oral, inalatória ou por meio de injeções intradérmicas (Escohotado, 1996).
Os primeiros produtos comerciais da substância começaram a surgir no início da segunda metade do século XIX (Escohotado, 1996; Karch, 1998). Tais produtos consistiam em infusões revigoradoras de folhas de coca, pastilhas para aliviar dores dentárias, tônicos e bebidas, alcóolicas e não-alcóolicas, que recebiam cocaína em sua composição. Duas bebidas atingiram grande notabilidade: o Vinho de Coca Mariani, produzido pelo médico corso que batizou com seu sobrenome a bebida e a Coca-Cola, do boticário norte-americano J. S. Pemberton, que a vendia para o combate à cefaléia e como tonificante. Com o advento da Lei Seca, Pemberton substituiu o álcool da fórmula por noz de cola (continente de cafeína), gaseificou a água e anunciou-a como "a bebida dos intelectuais e abstêmios" (Escohotado, 1996). Uma garrafa de 6 onças da bebida continha, em média, 2 miligramas de cocaína (Spillane, 1999). Em 1909, havia nos Estados Unidos 69 tipos de bebidas que continham cocaína em sua fórmula (Escohotado, 1996).
Entre 1880 e 1884 o Therapeutic Gazzette publicou 16 relatos de cura da dependência do ópio pela cocaína (Grinspoon et al, 1985). Mas foi a monografia de Sigmund Freud, Über Coca, em 1884, que sintetizou aquilo que vinha sendo falado e escrito pela comunidade científica nas últimas décadas. O trabalho do então desconhecido cientista, exaltava a capacidade da substância de exaltar o humor, combater o 'morfinismo' e o 'alcoolismo', transtornos gástricos, caquexia e a asma, além de ser afrodisíaco e anestésico local. Em artigos subseqüentes, considerou improvável a existência de uma dose letal para a substância e colocou suas experiências com a mesma no tratamento da histeria e hipocondria (Escohotado, 1996).
Dois laboratórios, Merck (1862) e Parke Davis (1870), passaram a comercializar a cocaína e dirigiram-na à classe médica na forma apresentações tais como extratos fluídos, vinhos, oleatos e salicilatos, inaladores, sprays nasais e cigarros contendo a cocaína em suas composições (Grinspoon et al, 1985; Johanson, 1988; Escohotado, 1996). Numa de suas campanhas, a Parke Davis publicou aos médicos: "Esperamos que seja mais freqüente a aplicação dos maravilhosos efeitos da cocaína na terapêutica geral, dos quais destacamos a melhora do estado de ânimo, o aumento das faculdades físicas e mentais, assim como o aumento da resistência ao esforço [...] Seria uma lástima que tão destacadas propriedades não fossem exploradas" (Escohotado, 1996). Nessa época, o cultivo da planta foi levado para colônias inglesas, tais como Jamaica, Madagascar, Camarões, Índia, Ceilão (atual Sri Lanka) e especialmente Java (Grinspoon, 1985; Negrete, 1992).
A reação ao tratamento de panacéia dispensado à cocaína, embora presente desde o início do século XIX, só ganhou relevância no final desse (Spillane, 1999). Sintomas psicóticos e depressivos, insônia e relatos de abuso e dependência, onde o consumo era classificado por seus usuários como uma 'tentação irresistível' golpearam os elogios incondicionais que a substância vinha recebendo até aquele período (Escohotado, 1996). Por volta de 1890, pelo menos 400 casos agudos ou crônicos de danos físicos e psíquicos relacionados à cocaína já haviam sido publicados na literatura médica (Grinspoon et al, 1985). Em 1901 a Coca-Cola retirou a cocaína de sua fórmula (Karch, 1998). Emil Kraepelin (1902), durante uma conferência para clínicos da Universidade de Heidelberg, ao falar sobre a importância do papel do médico para "a prevenção e o alívio da interminável miséria causada pela doença mental", apontou o alcoolismo, a sífilis e o abuso da morfina e da cocaína, como "os mais importantes pontos de ataque". Por volta de 1905, o consumo inalado da cocaína já era bastante difundido nos E.U.A. e o primeiro caso de lesão da mucosa nasal foi publicado pela literatura médica em 1910 (Karch, 1998). As sociedades médicas, no início partidárias, e depois convertidas em ferozes opositoras da cocaína, passaram a criticar a venda da cocaína pela indústria farmacêutica, afirmando que esses haviam promovido a substância de uma maneira irresponsável e não-científica (Spillane, 1999) .
A partir da segunda década do século XX, observou-se um declínio no consumo da cocaína nos Estados Unidos e na Europa até atingir níveis insignificantes. Para tal, alguns fenômenos foram determinantes: o fortalecimento do puritanismo e da ideologia proibicionista nos Estados Unidos, culminado no aparecimento de leis restritivas e punitivas (Harrison Narcotics Act, 1914; Boggs Act, 1951; Narcotics Control Act, 1956), que baniram a cocaína e a heroína do mercado livre, controlaram as importações desses produtos, perseguiram os médicos que prescreviam tais substâncias e fecharam várias clínicas para tratamento de dependentes (Escohotado, 1996). A depressão econômica que se estendeu até os anos 40, deixando menos dinheiro para gastos supérfluos (Grinspoon et al, 1985). O surgimento, na Europa, de medidas socio-educativas e de saúde pública, visando à prevenção e ao tratamento desses pacientes (Escohotado, 1996). E por fim, a anfetamina, um novo e potente estimulante de longa duração, foi sintetizada em 1932. A substância não possuía qualquer restrição punitiva por parte dos estados nacionais, era barata e parece ter substituído o consumo de cocaína em alguma proporção (Johanson, 1988).
Alguns fatores são apontados como contribuintes para o recrudescimento do consumo de cocaína e heroína no início dos anos 70: o aparato repressivo montado pelo Estado norte-americano concentrava seus esforços no combate à maconha e ao LSD, permitindo que outras substâncias fossem introduzidas no país (Escohotado, 1996). A partir de 1973, o consumo de anfetamina passou a ser controlado, deixando um universo de consumidores carentes de uma substância com as mesmas propriedades (Johanson, 1988). Os movimentos contraculturais beat e hippie, dos anos 50 e 60, além de entenderem a experiência com substâncias psicoativas como uma forma percepção, contestação e saída do sistema autoritário em que viviam as nações da Guerra Fria (tune in, turn on and drop out), contribuíram para a modificação dos valores autoritários da classe média e para a aproximação com os setores marginalizados da sociedade (negros, homossexuais, loucos enclausurados e bandidos) (OSAP, 1991; Escohotado, 1996). Durante o seu ressurgimento, a cocaína era considerada uma 'droga leve', incapaz de causar sintomas de dependência física e por isso foi pouco visada num primeiro momento (OMS, 1975; OSAP, 1991). O narcotráfico colombiano se profissionalizou a partir dos anos 70 (Uprimny, 1997). Utilizando sua experiência anterior no contrabando de ouro e esmeraldas e aproveitando as conexões existentes para a distribuição da maconha, introduziu crescentes quantidades de cocaína em território norte-americano, aumentando a disponibilidade e reduzindo posteriormente o preço do produto (The Economist, 2001).
Desse modo, a cocaína se apresentou aos anos 80 como um estimulante relativamente inócuo e eminentemente urbano (Grinspoon et al, 1985). O alto custo inicial da substância, seu snob appeal e reputação de 'droga das elites' conferiram-lhe uma imagem de algo desejável (Grinspoon, 1985). O estilo de vida de uma nova geração, nascida durante os anos efervescentes do movimento hippie, mas ideologicamente oposta a esse, estava associado à cocaína : essa geração ficou conhecida como yuppies (young urban professionals) (American Heritage Dictionary, 2000). Jovens profissionais bem sucedidos e totalmente integrados ao sistema de produção vigente, possuíam empregos invejáveis e sob medida para workarolics e identificavam-se com os ícones do consumismo (Grinspoon, 1985). O consumo de cocaína inalada era visto como provedor de energia, auto-estima e ambição social, atributos essenciais para esses jovens executivos (Gold, 1993).
O consumo de cocaína atravessou os anos 80 popularizando-se. Atingiu extratos sociais mais baixos, faixas etárias cada vez menores (Escohotado, 1996) e preços mais acessíveis, chegando a custar 250% menos, no final da década (The Economist, 2001). O narcotráfico colombiano, responsável pela produção e distribuição da cocaína pelo mundo, atingiu níveis avançados de organização e notoriedade internacional (Shannon, 1991; Morganthau et al, 1991). No final dos anos 80, era responsável por 80% da cocaína distribuída nos Estados Unidos e faturava cerca de 200 bilhões de dólares anuais (Arbex, 1996). Nesse contexto de popularização, uma nova apresentação da substância surgiu em território norte-americano, após um período embrionário na América do Sul. Foi denominado crack e seu impacto sobre a cultura norte-americana e mundial gerou grande interesse por parte da mídia e da comunidade científica.
O hábito de fumar a pasta de folhas de coca era praticamente desconhecido na América do Sul antes dos anos 70 (Negrete, 1992). A partir dessa época, começou a ganhar popularidade no Peru, espalhando-se para os outros países produtores no decorrer da década (Maass et al, 1990). Nos Estados Unidos, o uso da pasta de coca foi descrito pela primeira vez em 1974, numa comunidade restrita da Califórnia (Wallace, 1991) e atingiu alguma popularidade no final da década (Siegel, 1987, Wallace, 1991; Morgan et al, 1997). A pasta básica de coca (sulfato de cocaína) é obtida por meio da maceração ou pulverização das folhas de coca com solvente (álcool, benzina, parafina ou querosene), ácido sulfúrico e carbonato de sódio (Maass et al, 1990; Escohotado, 1996). Desde os primeiros relatos, chamava a atenção dos pesquisadores a intensidade e a curta duração dos sintomas de euforia, seu preço muito inferior ao da cocaína refinada, as impurezas do amálgama e o 'microtráfico' feito pelo usuário para a manutenção do próprio consumo (Maass et al, 1990). A pasta básica era chamada nos países andinos de basuco, evocando a natureza da mistura (alcalina) e a potência de seus efeitos psicotrópicos (bazuca) (Negrete, 1985). Essa experiência, inicialmente restrita à América Andina, foi considerada por alguns autores como a precursora do surgimento do crack nos Estados Unidos (Hamid, 1991a; Ellenhorn et al, 1997; Reinarman, 1997).
O crack surgiu entre 1984 e 1985 nos bairros pobres de Los Angeles, Nova York e Miami, habitados principalmente por negros ou hispânicos e acometidos por altos índices de desemprego (Del Roio, 1997, Reinarman, 1997). Era obtido de um modo simples e passível de fabricação caseira (Ellenhorn et al, 1997) e utilizados em grupo, dentro de casas com graus variados de abandono e precariedade (crack houses) (Geter, 1994). Os cristais eram fumados em cachimbos e estralavam (cracking) quando expostos ao fogo, característica que lhes conferiu o nome (Ellenhorn et al, 1997). A utilização produzia uma euforia de grande magnitude e de curta duração, seguida de intensa fissura e desejo de repetir a dose (OSAP, 1991). O perfil inicial desses consumidores, eminentemente jovem, era o seguinte (Hamid, 1991b): usuários de cocaína refinada, atraídos inicialmente pelo baixo preço do crack, usuários de maconha e poliusuários, que adicionaram o crack ao seu padrão de consumo e aqueles que adotaram o crack como sua primeira substância. Juntaram-se a essa população, usuários endovenosos de cocaína, geralmente mais velhos, que após o advento da AIDS, optaram pelo crack em busca de vias de administração mais seguras, sem prejuízo na intensidade dos efeitos (Dunn et al, 1999b). O baixo preço da substância também atraiu novos consumidores, de estratos sociais mais baixos, que pagavam por dose consumida e por isso faziam inúmeras transações (Blumstein et al, 2000). No entanto, sua pureza, algumas vezes inferior, a curta duração dos efeitos e a compulsão por novas doses, por vezes produziam um gasto mensal superior ao efetuado com a cocaína refinada (Caulkins et al, 1997; Ferri, 1999).
O crack modificou profundamente a economia doméstica do tráfico drogas, bem como seu modo de atuação. Hamid (1991a, 1991b) relata que antes do aparecimento do crack em Nova Iorque, a distribuição de substâncias era feita por grupos de minorias étnicas culturalmente coesas, fazendo seus lucros circularem dentro daquela comunidade, na forma de bens e serviços. Com a chegada do crack e seu padrão compulsivo de uso, a busca por divisas voltou-se para a obtenção de mais substância, em detrimento da comunidade onde o comércio se dava. Além disso, um importante paradigma, a separação entre vendedor e consumidor, foi abandonado: os consumidores assumiram papeis na distribuição e muitos traficantes viram-se dependentes do crack. A partir daí surgiu um novo modo para a distribuição: atomizado e executado por jovens e suas gangues, porém fortemente organizado e hierarquizado, onde cada um exercia um papel específico.
O ambiente de violência e criminalidade pronunciado, pode ser explicado por alguns fatores. O novo negócio fomentou competitividade entre os grupos (Hamid, 1991a, Blumstein et al, 2000). Era comandado por adolescentes marginalizados e excluídos do mercado de trabalho, sem outra perspectiva econômica (Morgan et al, 1997; Blumstein et al, 2000), naturalmente mais imaturos e impulsivos e muitas vezes dependentes da substância (Hamid, 1991b, Blumstein et al, 2000). O comércio do crack causou deterioração e desestabilização econômica de bairros, onde as vendas se concentravam, associado à falta da presença do Estado como provedor de políticas sociais e de segurança, atuando exclusivamente como agente repressor e estigmatizador do tráfico e seus usuários (Hatsukami, 1996). O fácil acesso a armas de fogo cada vez mais poderosas (Hatsukami, 1996), fez dessas o principal meio para os membros das gangues garantirem autoproteção, resolverem as disputas de mercado, defenderem os produtos e ativos ilegais, além de lhes conferirem status e poder na comunidade onde atuavam (Blumstein et al, 2000). O caráter abusivo e compulsivo do consumo do crack, gerador de fissura e busca desenfreada por uma nova dose (Gossop et al, 1994; Hatsukami et al, 1996). A chegada do comércio do ilegal do crack catalisou e amplificou déficits sociais latentes, que apareceram sob a forma de comportamentos violentos, tais como venda de objetos pessoais, furtos, roubos, disputa de gangues, assassinatos e prostituição (Hamid, 1991a).
A presença do crack começou a ser relatada em outros países no final dos anos 80 (figura 1.1 e figura 1.2). A Espanha é tida a porta de entrada do tráfico de cocaína e haxixe na Europa (OGD, 2000). O país vem detectando a presença crescente da cocaína, principalmente na camada jovem da população (Bosch, 2000). O crack é mais prevalente na região sul do país (Sevilha), decrescendo, gradativamente, até alcançar as cidades do Norte (Barcelona) (Barrio et al, 1998). Portugal e França apresentam índices insignificantes de consumo de cocaína, em termos de saúde pública, além de não fazerem menções sobre o crack (EMCDDA, 1999). A Itália (EMCDDA, 2000) detectou a presença do crack entre minorias de imigrantes (senegaleses), envolvidos no mercado do tráfico e habitando áreas marginalizadas. O consumo, restrito às minorias imigrantes, apresentou algum aumento entre os italianos. No Reino Unido, o crack surgiu em bairros pobres e marginalizados, habitado por minorias de imigrantes, causando disputas de espaço pela distribuição e criminalidade (Bean, 1993; Ditton, 1993; Pearson, 1993, Shapiro, 1993). A substância era relativamente conhecida pelo público jovem (Denham, 1995) e passou a ser utilizada por boa parte dos antigos usuários de cocaína (Strang et al, 1990), com predomínio maior entre os negros caribenhos (Gossop et al, 1994). Recentemente, a imprensa (Police crack down..., 2001) noticiou um aumento do consumo. A Alemanha (EMCDDA, 2000) observou a chegada do crack a partir da primeira metade dos anos 90. Produzido artesanalmente e para consumo próprio, no início, o crack é hoje mais prevalente que a cocaína naquele país, com grande penetrância entre os usuários de heroína. A Holanda parece não ter sentido a presença do crack até 1993 (Cohen, 1997), permanecendo restrito a minorias de imigrantes do Suriname (Cohen, 1995). Em 1998 o consumo de cocaína não-injetável (cocaína refinada e crack) era considerado tão prevalente quanto de heroína (Ameijden et al, 2001). Os países escandinavos (EMCDDA, 1999) têm grande predileção pelas anfetaminas, a substância mais consumida naqueles países, após a maconha (1-3%). Não há relatos sobre o crack nesses países.
Figura 1.1 - Prevalência do consumo mundial de cocaína, países produtores e principais rotas de tráfico
Fonte: UNODCCP. Global Illicit Drug Trends; 2001.
Um padrão insignificante de consumo de cocaína foi observado nos países do Leste Europeu, sem referências à presença do crack (UNODCCP, 2001).
Na Austrália, o crack parece ter causado pouca ou nenhuma repercussão (Mugford, 1997). O consumo de cocaína, no entanto, vem aumentando desde o início dos anos 90, apesar dos baixos índices (1,4%). Já nos países asiáticos, tais como Japão, China e Filipinas o consumo de estimulantes se dá preferencialmente com as anfetaminas, não havendo espaço para congêneres (NIDA, 1999; NIDA, 2001). Algum sinal do crack e drogas sintéticas (club drugs) tem sido detectado na Índia, em substituição ao consumo local de mandrax (OGD, 2000). A África do Sul é o maior mercado consumidor de cocaína do continente africano (OGD, 2000). Começou a sentir a presença do crack por volta de 1993, com índices crescentes de consumo, principalmente nas zonas miseráveis de Joanesburgo (Jeter, 2000). Os últimos relatos, no entanto, apontam para a estabilização ou mesmo redução do consumo nesse país (NIDA, 2001).
Figura 1.2 - Comportamento do consumo mundial de cocaína em 1999
Fonte: UNODCCP. Global Illicit Drug Trends; 2001.
Há poucas informações sobre a chegada do crack ao Brasil, em sua maioria provenientes da imprensa leiga ou de órgãos policiais. A apreensão de crack, realizada pela Polícia Federal, entre 1993-1997, aumentou 166 vezes (Procópio, 1999). A apreensão de pasta básica, no mesmo período e considerada por região, apresentou níveis decrescentes, excetuando-se a região sudeste, onde aumentou 5,2 vezes (Procópio, 1999). A cidade de São Paulo foi a mais atingida. A primeira apreensão da substância no município registrada nos arquivos da Divisão de Investigações sobre Entorpecentes (DISE), aconteceu em 1990 (Uchôa, 1996). Algumas evidências apontam para o surgimento da substância em bairros da Zona Leste da cidade (São Mateus, Cidade Tiradentes e Itaim Paulista), para em seguida alcançar a região da Estação da Luz (conhecida como "Cracolândia"), no centro (Uchôa, 1996). A partir daí espalhou-se para vários pontos da cidade, estimulado pelo ambiente de exclusão social (Uchôa, 1996) e pela repressão policial no centro da cidade (Dimenstein, 1999). O preço do crack, apesar de similar ao da cocaína refinada em termos de unidade de peso, possuía apresentações para o varejo que variavam de 1,00 a 50,00 reais, tornando-o acessível para uma faixa grande de consumidores (Dunn et al, 1998). Além disso, parece ter havido uma redução na oferta de outras drogas (Nappo et al, 1994). Procópio (1999), a partir de uma revisão em jornais de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, apresentou algumas considerações sobre o esquema de distribuição. Entre essas, figuram a ascensão de indivíduos cada vez mais jovens ao comando do tráfico, fragmentado e organizado em bandos (gangues), com divisão de tarefas ("dono da bocada", "chefe da distribuição", "avião", "fogueteiro") e normas rígidas de disciplina e punição, com alta prevalência de armas de fogo, caracterizando uma conduta marcadamente violenta, em decorrência da competição por espaço na distribuição e para fazer frente ao esquema de repressão ao tráfico. Apesar de desenhado a partir de dados parciais e em sua maioria sem sistematização científica, o panorama observado guarda semelhanças com a presença do crack em outros países.
Não há informações amplas sobre a evolução do consumo de crack no Brasil. Um importante fenômeno observado aqui (Dunn et al, 1996; Dunn et al, 1999b) e em outros países (Gossop et al, 1994; Barrio et al, 1998; Ameijden et al, 2001), durante os anos 90, foi a transição de vias de administração entre os usuários de cocaína. Tal fenômeno caracteriza-se pela substituição da via de administração, por meio da qual um indivíduo se iniciou no consumo de alguma substância, por uma nova via, que passa a ter sua predileção (Dunn et al, 1999b). Quanto às drogas injetáveis no Brasil, cocaína é praticamente a única substância utilizada (Carvalho et al, 2000; Seibel et al, 2000), tendo em vista a presença irrelevante de heroína no país (Dunn et al, 1999b; Carvalho et al, 2000). Até o final dos anos 80 o padrão inicial de consumo de cocaína era feito principalmente pela via intranasal e em menor proporção, pela via injetável (Dunn et al, 1999b). Nos países europeus, o consumo inicial de heroína dava-se principalmente pela via injetável (Gossop et al, 1994; Barrio et al, 1998; Ameijden et al, 2001). Após esse período, verificou-se um aumento daqueles que iniciavam seu consumo pela forma inalatória, em detrimento da injetável (Gossop et al, 1994; Dunn et al, 1999b, Kuebler, 2000; Ameijden et al, 2001). Uma porção dos usuários que utilizavam as vias injetável e intranasal migraram para a via inalatória, ao passo que essa foi a que menos perdeu adeptos (Dunn et al, 1999b). Alguns fatores influenciaram essa transformação: a severidade e o tempo prolongado de consumo de cocaína, o baixo preço e a disponibilidade do crack e a percepção crescente dos riscos associados ao modo injetável (HIV) (Dunn et al, 1999b).
Nos últimos anos, instituições ligadas à infância e a imprensa vêm notando uma redução do consumo em São Paulo (Dimenstein, 2000). Notícias sobre as apreensões de substâncias psicoativas pela polícia, mostraram um aumento expressivo das apreensões de maconha (507%) e discreto com relação à cocaína e crack (10%) (Apreensão de maconha..., 2001; Maconha, cocaína..., 20001). Os mesmos artigos também observaram a redução da procura por tratamento na rede pública municipal entre esses indivíduos. Tais informações, apesar de sugerirem uma diminuição do consumo devem ser analisadas com cautela: a redução nas apreensões policiais pode tanto significar uma queda do consumo, como também decorrer do surgimento de esquemas mais protegidos de tráfico, adaptados ao esquema de repressão, inclusive por meio da corrupção desse (Bean et al, 1993). A queda na procura por atendimento pode ser resultado de um redirecionamento da demanda para outras opções de tratamento. Dessa forma, o consumo do crack vem apresentando comportamentos de queda e ascensão em diversos países (figura 1.2), com desdobramentos futuros ainda incertos.
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DROGAS
Classificação das Drogas
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Todas as drogas psicotrópicas atuam sobre o cérebro, principal órgão do sistema nervoso central. | |||||||||||||||||||||||||||||
| Há diversas classificações possíveis para as drogas, dependendo do enfoque a que se propõem os pesquisadores ou interessados no assunto. | |||||||||||||||||||||||||||||
Cada substância age no cérebro de uma maneira e são utilizadas pela humanidade com propósitos distintos, podendo estes serem lícitos ou ilícitos. Assim, surgiram classificações para organizar tais substâncias e seus modos de consumo | |||||||||||||||||||||||||||||
| :: Classificação quanto aos efeitos farmacológicos das drogas | |||||||||||||||||||||||||||||
| Essa é a maneira de classificar as drogas psicotrópicas mais aceita e difundida. Ela leva em conta o tipo de ação ou efeito que as drogas causam no cérebro de seus usuários (quadro 1). | |||||||||||||||||||||||||||||
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| :: Drogas depressoras do sistema nervoso central | |||||||||||||||||||||||||||||
| Depressores de ação central ou psicolépticos são substâncias capazes de lentificar ou diminuir a atividade do cérebro, possuindo também alguma propriedade analgésica (quadro 2). Pessoas sob o efeito de tais substâncias tornam-se sonolentas, lerdas, desatentas e desconcentradas. | |||||||||||||||||||||||||||||
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:: Drogas estimulantes do sistema nervoso central | |||||||||||||||||||||||||||||
| Estimulantes centrais ou psicoanalépticos são substâncias capazes de aumentar a atividade cerebral (quadro 3). Há aumento da vigília, da atenção, aceleração do pensamento e euforia. Seus usuários tornam-se mais ativos, 'ligados'. | |||||||||||||||||||||||||||||
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| :: Drogas perturbadoras do sistema nervoso central | |||||||||||||||||||||||||||||
As drogas perturbadoras, alucinógenas ou psicodislépticas são aquelas relacionadas à produção de quadros de alucinação ou ilusão, geralmente de natureza visual (quadro 4). Os alucinógenos não possuem utilidade clínica (como os calmantes), tampouco podem ser utilizados legalmente (como o álcool, o tabaco e a cafeína). Os alucinógenos não se caracterizam por acelerar ou lentificar o sistema nervoso central. A mudança provocada é qualitativa. O cérebro passa a funcionar fora do seu normal e sua atividade fica perturbada. | |||||||||||||||||||||||||||||
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| O termo psicodélico foi bastante utilizado nos anos setenta, como sinônimo de alucinógeno. Ele surgiu em meio ao movimento hippie e envolto na concepção de que os alucinógenos eram capazes de expandir os estados da mente. Havia uma associação entre alucinógenos e a melhora da sensibilidade, da percepção do mundo, da realidade e da consciência sobre a Humanidade. Abandonado nos últimos anos pelos cientistas, sempre se manteve presente no meio artístico e intelectual, entitulando inclusive movimentos artísiticos desde então. A fim de retratar a origem história desta palavra, um fragmento de um texto de John Cashman (escrito em 1966 com o intuito de apresentar à sociedade norte-americana e discutir com essa o que era o LSD) aparece a seguir: | |||||||||||||||||||||||||||||
Enquanto grupo, tais drogas são geralmente conhecidas como alucinógenas, visto causarem transformações na percepção semelhantes a alucinações. Mas o nome é impreciso. Pessoas sob a influência do LSD ou qualquer outra das substâncias naturais tem consciência de que o que estão vendo não é real, é o efeito da droga. Por outro lado, alucinações verdadeiras são aquelas visões em que o paciente realmente acredita naquilo que está vendo. O termo, de qualquer modo, é bastante característico, e é prontamente compreeendido por médicos e leigos. | |||||||||||||||||||||||||||||
Num esforço para se adequar ao efeitos reais da droga, o termo psicomimético (o que imita a psicose) tem encontrado apoio nos círculos médicos. Mas esse termo é enganador, na medida em que não diz quais as psicoses ou que os atributos que as drogas são capazes de desencadear diferem acentuadamente da psicose com que são no mias das vezes associados – a esquizofrenia. A esperança prematura de que o LSD e a psicilocibina poderiam conduzir a uma violenta penentração no tratamento e compreensão da esquizofrenia, a psicose mais difundida e que mais tem resistido aos tratamentos, foi, apesar de tudo, abandonada. | |||||||||||||||||||||||||||||
Um esforço admirável para dar às drogas dilatadoras da mente uma designação genérica mais apropriada, envidou em 1957 O Dr. Humphry Osmond. Escrevendo nos Anais da Academia de Ciências de Nova York, o Dr. Osmond sumarizou sua busca semântica: | |||||||||||||||||||||||||||||
| "Tentei achar nome apropriado para os agentes [psicomiméticos] em discussão: um nome que incluísse os conceitos de enriquecimento da mente e alargamento da visão. Algumas das possibilidades são: psicofórico (transformador da mente), psico-hórmico (excitante da mente) e psicoplástico (moldador da mente). Psicozínico (fermentador da mente), com efeito é apropriado. Psico-réxico (explosor do espírito), apesar de difícil, é memorável. Psicolítico (libertador da mente) é satisfatório. Minha escolha recai sobre psicodélico (manifestador da mente), pois o termo é claro, eufônico e não contaminado por outras associações." | |||||||||||||||||||||||||||||
Os três termos estão em uso, não necessariamente de maneira intercambiável. O termo alucinógeno é usado por quase todo mundo. Mas se alguém chama as drogas de psicomiméticas, podemos apostas que pertence à confraria médica. Se usa o termo "psicodélico", as propabilidades de que seja um adepto do movimento pelo livre uso do LSD. E se, para denominar o LSD, usa somente o termo "ácido", provavelmente tem o hábito de toma-lo, conhece alguém que toma ou é um leitor do Time que está tentando passar por hippy. Nós nos referiremos ao LSD e ao resto da família como alucinógenos. | |||||||||||||||||||||||||||||
| (Cashman J. LSD. São Paulo: Ed. Perspectiva, 1980) | |||||||||||||||||||||||||||||
| :: Classificação quanto ao potencial de uso nocivo e utilidade clínica | |||||||||||||||||||||||||||||
| A Federal Drug Enforcement Administration (DEA) elaborou uma classificação bastante adotada hoje pelos órgãos de saúde pública e vigilância sanitária de todo o mundo. A classificação baseia-se tanto na utilidade clínica da substância, quanto no seu potencial de uso nocivo (quadro 5). | |||||||||||||||||||||||||||||
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| :: Classificação quanto ao status legal das substâncias | |||||||||||||||||||||||||||||
As drogas psicotrópicas podem ser, do ponto de vista legal, consideradas lícitas ou ilícitas. As drogas lícitas possuem permissão do Estado para serem comercializadas e consumidas. As drogas ilícitas não podem ser consumidas e muito menos comercializadas, pelo menos com a anuência do Estado (quadro 6). Os critérios utilizados para determinar as drogas lícitas e ilícitas são mais culturais do que científicos. Isso porque as drogas não são meros compostos farmacológicos. Elas também recebem outros atributos e os valores sustentados por cada sociedade influem nas déias formadas sobre as drogas. | |||||||||||||||||||||||||||||
Tais valores variam ao longo do tempo e da nação para nação. Durante o século IX, o uso de aguardentes era proibido na China. Até hoje, as bebidas alcoólicas são veementemente proibidas nos países islâmicos. O consumo de café no Império Russo (século XVIII) era punido com a mutilação das orelhas. O uso de tabaco era punido com a amputação dos membros na Pérsia e na Turquia (século XVII). | |||||||||||||||||||||||||||||
| Esta divisão eminentemente cultural, pode passar a idéia de que as drogas lícitas são seguras, ao passo que as ilícitas são perigosas, demoníacas até. Na realidade, o álcool e o tabaco são as substâncias que mais levam seus usuários à doença e à morte. São as que mais causam mortes passíveis de prevenção no mundo. Desse modo, não se trata de absorver, minimizar ou condenar esta ou aquela substância. Todas trazem prejuízos e perigos potenciais que devem ser sempre considerados, independentemente de serem lícitas ou ilícitas. | |||||||||||||||||||||||||||||
É importante notar que mesmo as drogas tidas como lícitas sofrem controles por parte das nações. Algumas drogas com potencial de uso nocivo, mas com indicações medicamentosas são vendidas de forma controlada, com receitas especiais (quadro 7). Na maior parte dos países, o álcool não pode ser vendido para menores de 18 anos e em alguns deles sua venda é proibida aos domingos (dia religioso). O consumo de álcool não é permitido dentro da escola ou do trabalho. | |||||||||||||||||||||||||||||
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É possível notar que entre as drogas lícitas há aquelas que não possuem utilidade médica, mas são consumidas livremente ou com algum controle. É o caso do álcool e do tabaco. Há aquelas que apesar de causarem dependência possuem indicações médicas precisas e importantes. São os calmantes, os analgésicos derivados do ópio e as anfetaminas. Mas há um último grupo, que não possui indicações para uso médico, tampouco destinam-se originalmente ao consumo humano. Tratam-se dos inalantes. Esses compostos orgânicos, presentes nas tintas acrílicas, sprays, corretores de tinta, nos combustíveis, colas, solventes e removedores são causadores potenciais de complicações agudas e crônicas. Seus usuários são principalmente os jovens de classes menos favorecidas. Uma droga lícita que nos rodeia imperceptível e ainda carece de mais atenção de nossa sociedade. | |||||||||||||||||||||||||||||
| :: Classificação quanto a origem | |||||||||||||||||||||||||||||
| As drogas podem ser classififcadas em naturais, semi-sintéticas e sintéticas: | |||||||||||||||||||||||||||||
| :: Drogas Naturais | |||||||||||||||||||||||||||||
São aquelas extraídas de uma fonte exclusivamente natural, em geral de plantas. Alguns exemplos são a cocaína, a maconha, a morfina, a mescalina e a psilocibina. | |||||||||||||||||||||||||||||
| :: Drogas Semi-Sintéticas | |||||||||||||||||||||||||||||
São drogas obtidas em laboratório, a partir de uma matriz natural. A droga semi-sintética mais conhecida é a heroína, obtida em laboratório a partir da molécula de morfina. | |||||||||||||||||||||||||||||
| :: Drogas Sintéticas | |||||||||||||||||||||||||||||
Drogas totalmente obtidas em laboratório, sem a necessidade de precursosres naturais. As primeiras drogas sintéticas psicotrópicas produzidas foram os barbitúricos e as anfetaminas. Há vários opiáceos sintéticos em nosso meio, dentre os quais destacam-se a meperidina (Dolantina®) e a fentanila (Fentanil®). Uma nova classe de drogas apareceu dentro das drogas sintéticas. | |||||||||||||||||||||||||||||
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| Por fim, é importante comentar um conceito bastante presente em nossa cultura: o natural é sempre seguro e saudável. Muitos afirmam não se aproximar da cocaína, da heroína e do ecstasy porque são 'químicos', enquanto que a maconha é uma erva, é natural. Se isso fosse totalmente verdadeiro não haveria venenos naturais. Ser da natureza não confere inofensividade a ninguém. Além disso, o organismo interpreta os alimentos e substâncias ingeridos sob a óptica química. Ele absorve moléculas, que uma vez em seus receptores geram determinados efeitos, muitos deles capazes de causar dependência. Não interessa ao corpo se saíram de uma planta cultiva com adubos biológicos ou de uma caixa de medicamento. O tabaco é uma planta de venda lícita. Nem por isso deixa de causar problemas ao organismo. | |||||||||||||||||||||||||||||
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DROGAS