Depressão Materna
Mais uma vez uma história de infanticídio choca a todos nós**. O caso Paraná causou revolta, indignação, perguntas sem respostas. Como uma mãe que deve proteger o filho é capaz de praticar ato tão absurdo? Mas, não temos interesse aqui em julgar as atitudes dessa mãe, já que ainda não se sabe como realmente as coisas aconteceram.
Fazemos parte de uma comunidade do Orkut de Mulheres atingidas pela Depressão pós-parto. A nossa preocupação é informar que a DPP é uma doença real e que causa sofrimento em inúmeras mães e famílias. E, ainda sim é vista de forma preconceituosa, não sendo discutida abertamente e não se provendo políticas públicas que orientem as futuras mães e ofereça tratamento às atingidas.
Pesquisas mostram que de cada 10 mulheres, 1 é atingida pela depressão pós-parto, sem contar as mulheres que não se pronunciam por vergonha e por não entender o que acontece com ela.
O fato é que a Depressão pós-parto é uma doença totalmente tratável. Sendo assim, casos de tragédia como a do Paraná, poderiam ser perfeitamente evitados, caso o sistema de saúde oferecesse um apoio psicológico durante a gestação e o pós-parto imediato para todas as gestantes como programa obrigatório de prevenção e cuidado com a futura mãe. Porém, o que percebemos é que a Depressão pós-parto só é discutida na mídia quando fatos extremos acontecem. Assim a grande maioria das mulheres continua sem saber realmente o que é Depressão, quais os seus sintomas, onde e como procurar ajuda.
A Depressão pós-parto pode ter início ainda no período gestacional ou aparecer até dois anos após o nascimento da criança. Os sintomas se manifestam em graus leves e moderados e em casos extremos a mulher pode a vir a desenvolver psicose puerperal que é um estado avançado da depressão pós-parto, nestes casos a mulher precisa ter um acompanhamento assistido de perto e muitas das vezes necessita de internação, pois pode oferecer risco a si própria e ao bebê.
Diferentemente da Tristeza pós-parto, que é comum em 80% das mulheres e que ocorre apenas nas primeiras semanas após o nascimento do bebê, ocorrendo por influencia dos hormônios, a DPP se manifesta com sintomas constantes como: irritabilidade, mudanças freqüentes de humor, crises de choro, tristeza sem motivo aparente, sendo comum à mulher passar a não querer sair de casa, não querer ver ninguém, não ter interesse em fazer as coisas que antes gostava, coisas corriqueiras como as tarefas do dia-a-dia, sentir-se incapacitada para cuidar do bebe , as vezes demonstrando desinteresse por ele ou excesso de proteção e dependência do bebe, apresentando pensamentos a todo instante de que algo ruim pode acontecer com ambos, e por vezes chegando ao extremo de pensamento suicidas e homicidas em relação ao bebê.
Infelizmente muitas mulheres que apresentam sintomas da DPP não recorrem ao médico e não buscam ajuda. O tratamento é feito à base de medicamentos e com intervenção terapêutica quando possível. Percebe-se que muitas mulheres se recusam a procurar ajuda médica por estarem amamentando e por este motivo têm medo dos medicamentos fazer algum mal para o bebê. Porém, o tratamento medicamentoso é necessário e não interfere na amamentação.
Quando uma mulher engravida, ela realiza o pré-natal, e muitas recorrem aos cursinhos de gestantes que oferecem informações sobre alimentação, tipos de parto, cuidados com o bebê, amamentação, mas em nada se orienta sobre a DPP. Ainda na maternidade essa mesma mulher não recebe nenhum tipo de orientação psicológica, nenhuma avaliação e nenhuma orientação sobre a doença. Ao chegar em casa com o seu bebê no colo, e diante de tantas mudanças bruscas em seu cotidiano, a mulher não entende porque aquele momento tão esperado e planejado nos seus mínimos detalhes se transformou em um momento de pesadelo, angústia, desespero, medo e arrependimento. Ela não sabe se precisa buscar ajuda, nem onde consegui-la. Na maioria das vezes a mulher não pode contar nem com a própria família, tem medo das reações e do preconceito que certamente virá acompanhado de críticas e de conselhos contraproducentes.
A verdade é que a Depressão pós-parto não é brincadeira, frescura, maldade...A DPP é uma doença como todas as outras, que precisa ser tratada adequadamente e o mais cedo possível para que as conseqüências para a mãe, à criança e a família sejam as menores possíveis.
A DPP não escolhe suas vítimas por condições sócio-econômicas ou culturais. Ela pode bater na porta de qualquer mulher que sonha com a maternidade. E a única forma de serem combatidas essas situações extremas e tristes para as famílias, é lutarmos para que seja oferecida uma assistência psicológica para todas as mulheres, cuja próxima etapa da vida, influenciará o futuro de todas essas crianças e, por conseguinte, de toda sociedade.
Portanto, reiteramos que é de extrema importância que a DPP seja discutida com seriedade e não só em momentos trágicos, é fato que se existir um trabalho de orientação ainda no pré-natal aumenta-se a possibilidade de prevenção contra uma depressão pós-parto. Cabe ao meio político providenciar meios para que seja oferecido o acesso a informação sobre a doença e o devido acompanhamento às futuras mães para que todas tenham a possibilidade de vivenciar o momento da maternidade de forma plena e saudável.
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Amamentação não aumenta flacidez dos seios
Uma pesquisa da Universidade do Kentucky, Estados Unidos, diz que a amamentação não aumenta a flacidez dos seios.
Entre os principais fatores causadores da flacidez, segundo os médicos, estariam a idade, o número de gestações e o fumo.
Os cientistas conduziram a pesquisa com mulheres que se submeterem a cirurgias plásticas no hospital da universidade e descobriram que outros fatores são responsáveis pela flacidez, incluindo o tabagismo.
"Muitas vezes, se uma mulher aparece (no hospital) pedindo cirurgia para levantar ou aumentar os seios, ela diz: 'Quero consertar o que a amamentação fez com meus seios'", disse o autor do estudo, o cirurgião plástico Brian Rinker.
O médico apresentou os resultados de seu estudo esta semana na conferência da Sociedade Americana de Cirurgiões Plásticos em Baltimore.
Em média, as mulheres tinham 39 anos e 93% delas já tinham passado por pelo menos uma gravidez. A maioria das mães, 58%, tinha amamentado pelo menos um filho.
A equipe de pesquisa também avaliou o histórico médico da paciente, índice de massa corporal, tamanho do sutiã usado antes da gravidez e se a paciente fumava.
Os resultados não mostraram diferença no grau de flacidez dos seios entre as mulheres que amamentaram e as que não amamentaram.
Mas os pesquisadores descobriram que outros fatores afetavam a firmeza dos seios, incluindo idade, número de gestações e se a paciente fumava ou não.
Rinker afirma que o fumo pode gerar um efeito decisivo para a flacidez.
"O fumo quebra uma proteína da pele chamada elastina, que dá à pele uma aparência jovem e flexível e dá apoio aos seios... então faz sentido o fato de que (o fumo) tenha um efeito adverso nos seios", disse.
Entre os principais fatores causadores da flacidez, segundo os médicos, estariam a idade, o número de gestações e o fumo.
Os cientistas conduziram a pesquisa com mulheres que se submeterem a cirurgias plásticas no hospital da universidade e descobriram que outros fatores são responsáveis pela flacidez, incluindo o tabagismo.
"Muitas vezes, se uma mulher aparece (no hospital) pedindo cirurgia para levantar ou aumentar os seios, ela diz: 'Quero consertar o que a amamentação fez com meus seios'", disse o autor do estudo, o cirurgião plástico Brian Rinker.
O médico apresentou os resultados de seu estudo esta semana na conferência da Sociedade Americana de Cirurgiões Plásticos em Baltimore.
Entrevistas
Rinker e sua equipe entrevistaram 132 mulheres que foram até o hospital da universidade para uma cirurgia plástica nos seios entre 1998 e 2006.Em média, as mulheres tinham 39 anos e 93% delas já tinham passado por pelo menos uma gravidez. A maioria das mães, 58%, tinha amamentado pelo menos um filho.
A equipe de pesquisa também avaliou o histórico médico da paciente, índice de massa corporal, tamanho do sutiã usado antes da gravidez e se a paciente fumava.
Os resultados não mostraram diferença no grau de flacidez dos seios entre as mulheres que amamentaram e as que não amamentaram.
Mas os pesquisadores descobriram que outros fatores afetavam a firmeza dos seios, incluindo idade, número de gestações e se a paciente fumava ou não.
Rinker afirma que o fumo pode gerar um efeito decisivo para a flacidez.
"O fumo quebra uma proteína da pele chamada elastina, que dá à pele uma aparência jovem e flexível e dá apoio aos seios... então faz sentido o fato de que (o fumo) tenha um efeito adverso nos seios", disse.
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O porquê da dor
A gente pode dissecar a questão da dor (do parto) de infinitos modos, pois não se trata de uma grandeza absoluta, não mede xis unidades de qualquer coisa. Ela é relativa, e a múltiplos fatores combinados entre si, físicos e psíquicos, conscientes e inconscientes, e a combinação de todos eles produz a percepção psico-física dentro de limiares individuais.
Na nossa cultura, o parto é na grande maior parte das vezes vivenciado e relatado como um evento em que está presente uma dor que beira o insuportável. Será necessário que seja assim? Vejamos...
Primeiramente há o aspecto evolutivo. O parto humano é o que apresenta a relação céfalo- pélvica mais estreita da natureza. Um dia resolvemos descer das árvores e caminhar sobre duas pernas. Outro dia resolvemos engrossar nossa camada de neo-córtex cerebral: resultamos bípedes e cabeçudos, porque somos metidos a não ser bestas. E na hora de parir nossos filhotes, os processos musculares de contração das paredes e dilatação do colo uterino, mais os movimentos do bebê empurrando-se para fora ocorrem sem folga de espaço, e as sensações fortes* que esses processos produzem podem ser interpretados como "dor", e potencializados em sensações ainda mais dolorosas se houver medo, insegurança, ou ação de hormônios artificiais como se costuma aplicar através de soro às mulheres em trabalho de parto com o objetivo de acelerar o processo, atingindo níveis de fato insuportáveis. Em "Correntes da Vida", o psicoterapeuta inglês David Boadella** descreve o comportamento uterino em trabalho de parto quando a mãe sente qualquer tipo de medo consciente ou inconsciente:
"(...) o útero tenta fazer duas coisas antagônicas ao mesmo tempo: tenta abrir-se, sob a influência do relógio biológico que atua através do hormônio que prepara o caminho para o bebê nascer; e, simultaneamente, tenta manter-se fechado, sob a influência dos nervos simpáticos, trazidos à ação pelo medo. É como se alguém quisesse dobrar e esticar o braço ao mesmo tempo; o braço teria um espasmo, que causaria dor. isso é exatamente o que acontece com o útero de uma mãe que é incapaz de relaxar e que está condicionada a sentir dor."
Mas por que a mulher está condicionada a sentir dor? Um dos motivos é o arquétipo do parto doloroso em conseqüência do pecado original, como reza nossa cultura judaico-cristã. Ao expulsar Adão e Eva do Paraíso por terem provado do fruto do Conhecimento, o Criador lhes diz: "Multiplicarei sobremodo os sofrimentos da tua gravidez; em meio de dores darás à luz filhos" (Gênesis 3:16). Ora, como não sentir dor se o próprio Deus a determina? O arquétipo do parto como sofrimento foi literalmente in-corporado baixo a quase 6.000 anos de crença.
Outro aspecto importante, é o caráter fisiológico do parto. Esta noção não faz parte do senso comum: de que o ato de parir (assim como gestar e amamentar) é tão fisiológico e saudável quanto respirar, digerir, filtrar o sangue, pensar, absorver nutrientes, excretar, chorar, ouvir, enxergar, fazer sexo, fazer amor. Mas na nossa cultura, uma mulher grávida é vista como alguém sob risco potencial e iminente, o parto é visto como um evento necessariamente hospitalar e na maioria das vezes, cirúrgico. Ao transformar um evento potencialmente saudável em necessariamente patológico, a dor encontra campo fértil para ser identificada como tal. Está aí um dos fatores que levam tantas mulheres a sentir pavor pelo parto normal.
A dor tida por alucinante pode ser percebida como lidável quando a mulher, em primeiro lugar subtrai-lhe a parcela da dor propriamente dita, advinda do medo e da insegurança; o restante das sensações, ela pode converter em sensações lidáveis ao aceitar a natureza do seu corpo, aceitar as sensações do trabalho de parto não como alguma coisa a vencer, contra as quais se deve lutar - porque elas não resultam de uma patologia, não sinalizam alguma coisa que está errada, como uma fratura ou queimadura, por exemplo. Não. Essa sensação é uma aliada que sinaliza o processo fisiológico do parto, levando a mulher a fazer força, ou a se contorcer, a gemer, a acocorar-se ou a procurar a banheira, e entre as contrações as sensações atenuam, como ondas***, e você pode relaxar. As sensações intensas levam ao transe, e esse transe tem que ser aproveitado, ele faz parte. Você não precisa de anestésicos, ordem pra fazer força, fórceps. Você precisa apenas de liberdade para vivenciar seu parto.
O parto é você, é o seu corpo em plena atividade, e você não deveria deixar esta parte de você ser subtraída por uma conveniência que vem de fora. Existem séculos de uma cultura desfeminilizante costurando essa rede em que se cai tão facilmente, como eu mesma caí nos meus partos. Não é a mulher que precisa da anestesia, são os outros que precisam do conforto de uma mulher parindo quietinha.
E há outro aspecto que eu acho muito interessante que é a coisa do ritual de passagem. Nós cultivamos algumas manifestações externas de rituais, como casamentos, batizados, bar-mitzvahs, aniversários, festas da primavera, e essas festas refletem a nossa necessidade humana de marcar as passagens das fases, de criança inimputável para o adulto responsável, da vida individual para a vida em família, de um período de dureza para outro de fartura, enfim, quando passamos de uma fase para outra sem essa marca fica faltando alguma coisa. Tive um tio que foi tratado com hormônios nos anos 40 para acelerar seu crescimento. Na verdade ele foi cobaia das primeiras experimentações com hormônios no Brasil. De um dia para o outro ganhou pelos pelo corpo, engrossou a voz, a adolescência que deveria prepará-lo vagarosamente para a idade adulta veio num turbilhão que ele não deu conta e ninguém à volta dele compreendeu. Ele enlouqueceu.
Assim é com o parto. Quando se tenta ao máximo passar por ele como se nada tivesse acontecido - e o ápice disso é a cesárea eletiva, está-se pulando um ritual fundamental para o início da maternidade. E o efeito cascata começa: dificuldade de estabelecer vínculo com o bebê, depressão pós-parto, "falta" de leite, intolerância ao comportamento do bebê. O parto normal cheio de intervenções, do qual se diz "ah, foi uma beleza, não senti na-da!!! fiquei ali, conversando, e em xis (poucas) horas o bebê nasceu!!" não é muito menos maquiagem da passagem. Sim, "de repente" o bebê estava ali. E ela não precisou fazer nada. Inicia-se a maternidade com a sensação de que "não é preciso fazer nada" para ser mãe. E começa a transferência de responsabilidade... impulsionada pela sensação inconsciente de que a maternidade moderna NÃO PODE ser trabalhosa. E esse caráter trabalhoso que a maternidade efetivamente tem, não é, como nossa sociedade acredita, um sofrimento, um castigo do qual devemos nos livrar. Ao contrário, ela contém o extremo prazer que sentem as pessoas que superam desafios, convivendo com as mudanças no corpo e na vida pelo prazer que isso traz, em oposição à compulsão de querer lutar contra as mudanças irreversíveis promovidas pela chegada dos filhos.
O processo do parto vem sendo aprimorado há milhões de anos (ou milhares, depende do critério), e a humanidade definitivamente não aperfeiçoou este processo agregando-lhe tecnologia, apenas o corrompeu. Anestesia, ocitocina na veia, posição horizontal, raspagens, submissão a alguém como dono do parto, kristeller, amniotomia, episiotomia, tudo isso num trabalho de parto que está transcorrendo sem intercorrências, não é evolução: é perversão. Das grossas. Você e seu bebê não precisam de mais nada além dos seus corpos com seus hormônios para permitir o nascimento.
Precisamos desconstruir o conceito de parto doloroso, e compreender e desejar e conquistar o parto prazeroso, não importa quão trabalhoso ele possa ser. Não se deixem levar pela inércia do sistema obstétrico vigente, que inadvertidamente vampiriza a força, a beleza e a vida que mãe e bebê protagonizam no ato de parir e nascer.
Na nossa cultura, o parto é na grande maior parte das vezes vivenciado e relatado como um evento em que está presente uma dor que beira o insuportável. Será necessário que seja assim? Vejamos...
Primeiramente há o aspecto evolutivo. O parto humano é o que apresenta a relação céfalo- pélvica mais estreita da natureza. Um dia resolvemos descer das árvores e caminhar sobre duas pernas. Outro dia resolvemos engrossar nossa camada de neo-córtex cerebral: resultamos bípedes e cabeçudos, porque somos metidos a não ser bestas. E na hora de parir nossos filhotes, os processos musculares de contração das paredes e dilatação do colo uterino, mais os movimentos do bebê empurrando-se para fora ocorrem sem folga de espaço, e as sensações fortes* que esses processos produzem podem ser interpretados como "dor", e potencializados em sensações ainda mais dolorosas se houver medo, insegurança, ou ação de hormônios artificiais como se costuma aplicar através de soro às mulheres em trabalho de parto com o objetivo de acelerar o processo, atingindo níveis de fato insuportáveis. Em "Correntes da Vida", o psicoterapeuta inglês David Boadella** descreve o comportamento uterino em trabalho de parto quando a mãe sente qualquer tipo de medo consciente ou inconsciente:
"(...) o útero tenta fazer duas coisas antagônicas ao mesmo tempo: tenta abrir-se, sob a influência do relógio biológico que atua através do hormônio que prepara o caminho para o bebê nascer; e, simultaneamente, tenta manter-se fechado, sob a influência dos nervos simpáticos, trazidos à ação pelo medo. É como se alguém quisesse dobrar e esticar o braço ao mesmo tempo; o braço teria um espasmo, que causaria dor. isso é exatamente o que acontece com o útero de uma mãe que é incapaz de relaxar e que está condicionada a sentir dor."
Mas por que a mulher está condicionada a sentir dor? Um dos motivos é o arquétipo do parto doloroso em conseqüência do pecado original, como reza nossa cultura judaico-cristã. Ao expulsar Adão e Eva do Paraíso por terem provado do fruto do Conhecimento, o Criador lhes diz: "Multiplicarei sobremodo os sofrimentos da tua gravidez; em meio de dores darás à luz filhos" (Gênesis 3:16). Ora, como não sentir dor se o próprio Deus a determina? O arquétipo do parto como sofrimento foi literalmente in-corporado baixo a quase 6.000 anos de crença.
Outro aspecto importante, é o caráter fisiológico do parto. Esta noção não faz parte do senso comum: de que o ato de parir (assim como gestar e amamentar) é tão fisiológico e saudável quanto respirar, digerir, filtrar o sangue, pensar, absorver nutrientes, excretar, chorar, ouvir, enxergar, fazer sexo, fazer amor. Mas na nossa cultura, uma mulher grávida é vista como alguém sob risco potencial e iminente, o parto é visto como um evento necessariamente hospitalar e na maioria das vezes, cirúrgico. Ao transformar um evento potencialmente saudável em necessariamente patológico, a dor encontra campo fértil para ser identificada como tal. Está aí um dos fatores que levam tantas mulheres a sentir pavor pelo parto normal.
A dor tida por alucinante pode ser percebida como lidável quando a mulher, em primeiro lugar subtrai-lhe a parcela da dor propriamente dita, advinda do medo e da insegurança; o restante das sensações, ela pode converter em sensações lidáveis ao aceitar a natureza do seu corpo, aceitar as sensações do trabalho de parto não como alguma coisa a vencer, contra as quais se deve lutar - porque elas não resultam de uma patologia, não sinalizam alguma coisa que está errada, como uma fratura ou queimadura, por exemplo. Não. Essa sensação é uma aliada que sinaliza o processo fisiológico do parto, levando a mulher a fazer força, ou a se contorcer, a gemer, a acocorar-se ou a procurar a banheira, e entre as contrações as sensações atenuam, como ondas***, e você pode relaxar. As sensações intensas levam ao transe, e esse transe tem que ser aproveitado, ele faz parte. Você não precisa de anestésicos, ordem pra fazer força, fórceps. Você precisa apenas de liberdade para vivenciar seu parto.
O parto é você, é o seu corpo em plena atividade, e você não deveria deixar esta parte de você ser subtraída por uma conveniência que vem de fora. Existem séculos de uma cultura desfeminilizante costurando essa rede em que se cai tão facilmente, como eu mesma caí nos meus partos. Não é a mulher que precisa da anestesia, são os outros que precisam do conforto de uma mulher parindo quietinha.
E há outro aspecto que eu acho muito interessante que é a coisa do ritual de passagem. Nós cultivamos algumas manifestações externas de rituais, como casamentos, batizados, bar-mitzvahs, aniversários, festas da primavera, e essas festas refletem a nossa necessidade humana de marcar as passagens das fases, de criança inimputável para o adulto responsável, da vida individual para a vida em família, de um período de dureza para outro de fartura, enfim, quando passamos de uma fase para outra sem essa marca fica faltando alguma coisa. Tive um tio que foi tratado com hormônios nos anos 40 para acelerar seu crescimento. Na verdade ele foi cobaia das primeiras experimentações com hormônios no Brasil. De um dia para o outro ganhou pelos pelo corpo, engrossou a voz, a adolescência que deveria prepará-lo vagarosamente para a idade adulta veio num turbilhão que ele não deu conta e ninguém à volta dele compreendeu. Ele enlouqueceu.
Assim é com o parto. Quando se tenta ao máximo passar por ele como se nada tivesse acontecido - e o ápice disso é a cesárea eletiva, está-se pulando um ritual fundamental para o início da maternidade. E o efeito cascata começa: dificuldade de estabelecer vínculo com o bebê, depressão pós-parto, "falta" de leite, intolerância ao comportamento do bebê. O parto normal cheio de intervenções, do qual se diz "ah, foi uma beleza, não senti na-da!!! fiquei ali, conversando, e em xis (poucas) horas o bebê nasceu!!" não é muito menos maquiagem da passagem. Sim, "de repente" o bebê estava ali. E ela não precisou fazer nada. Inicia-se a maternidade com a sensação de que "não é preciso fazer nada" para ser mãe. E começa a transferência de responsabilidade... impulsionada pela sensação inconsciente de que a maternidade moderna NÃO PODE ser trabalhosa. E esse caráter trabalhoso que a maternidade efetivamente tem, não é, como nossa sociedade acredita, um sofrimento, um castigo do qual devemos nos livrar. Ao contrário, ela contém o extremo prazer que sentem as pessoas que superam desafios, convivendo com as mudanças no corpo e na vida pelo prazer que isso traz, em oposição à compulsão de querer lutar contra as mudanças irreversíveis promovidas pela chegada dos filhos.
O processo do parto vem sendo aprimorado há milhões de anos (ou milhares, depende do critério), e a humanidade definitivamente não aperfeiçoou este processo agregando-lhe tecnologia, apenas o corrompeu. Anestesia, ocitocina na veia, posição horizontal, raspagens, submissão a alguém como dono do parto, kristeller, amniotomia, episiotomia, tudo isso num trabalho de parto que está transcorrendo sem intercorrências, não é evolução: é perversão. Das grossas. Você e seu bebê não precisam de mais nada além dos seus corpos com seus hormônios para permitir o nascimento.
Precisamos desconstruir o conceito de parto doloroso, e compreender e desejar e conquistar o parto prazeroso, não importa quão trabalhoso ele possa ser. Não se deixem levar pela inércia do sistema obstétrico vigente, que inadvertidamente vampiriza a força, a beleza e a vida que mãe e bebê protagonizam no ato de parir e nascer.
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Depressão atinge até 35% das mães
Pesquisa do Instituto de Psicologia da USP encontrou incidência do transtorno três vezes mais alta em São Paulo
Um outro lado da maternidade, distante do mundo cor-de-rosa dos filmes, dos sonhos adolescentes e dos comerciais de televisão, tem aparecido com maior freqüência na vida de mães e bebês paulistanos, segundo pesquisa do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). Ao acompanhar as consultas de pré-natal, o parto e os retornos de mulheres atendidas em hospitais públicos da cidade, aplicando um questionário padrão e uma avaliação, o trabalho encontrou uma incidência de depressão pós-parto em 32% a 35% delas - um número três vezes mais alto do que o identificado na literatura médica internacional, que varia de 10% a 15%.
São mulheres que, em vez dos sorrisos constantes pela felicidade de ter um bebê em casa, como elas e as famílias provavelmente esperavam, se deparam com crises de choro, irritação permanente, dificuldades para dormir e comer, sensação de desamparo e tristeza e falta de apetite sexual - nos casos mais graves, podem ocorrer tentativas de suicídio e atos de violência contra a criança. Além disso, sentem raiva do bebê, o culpam por sua situação e, muitas vezes, acabam sendo negligentes em relação aos cuidados de que a criança necessita, tratando-a como um fardo. Esse conjunto de sintomas pode aparecer nos primeiros dias após o parto e, se não for cuidado, persistir por até um ano.
E não são só as mulheres que sofrem com essa situação. Uma série de pesquisas indica que essa falta de contato com a mãe nas primeiras semanas traz conseqüências para o desenvolvimento físico e neuromotor da criança, persistindo nos anos seguintes: interagem menos com adultos, estabelecem menos relações afetivas e têm níveis mais altos de hormônios relacionados ao stress no organismo.
"O índice de depressão pós-parto que encontramos nas mulheres atendidas foi realmente alto, três vezes maior do que o descrito na literatura médica, e por isso partimos para análise dos fatores que poderiam influenciar no comportamento dessas mulheres", explica a pediatra Maria Teresa Zulini da Costa, pós-doutoranda na USP e uma das pesquisadoras do projeto, coordenado pelas psicólogas Emma Otta e Vera Silvia Raad Bussab. "Encontramos, entre mulheres com depressão pós-parto, um número alto de gestações não programadas e não desejadas, falta de estrutura doméstica, ausência do pai da criança. São mães que acabam tendo de arcar sozinhas com a maternidade", diz.
Outro fator que evidencia a influência do aspecto socioeconômico na depressão pós-parto é o fato de, em um grupo de mulheres atendidas pela pesquisa em hospitais privados de São Paulo, a incidência do transtorno não ultrapassar os 7%. Ressalve-se que, ainda assim, é uma taxa significativa que mostra que a condição econômica e de infra-estrutura não explica, sozinha, o transtorno.
O alto índice de depressão pós-parto em mulheres de renda mais baixa também foi constatado em um estudo com um universo menor de mulheres, feito na Universidade Federal da Paraíba pelas pesquisadoras Evelyn de Albuquerque Saraiva e Maria da Penha Coutinho. Ao acompanhar 84 mães usuárias de um serviço público de saúde, perceberam que cerca de 30% delas apresentavam o conjunto de sintomas.
"Apesar da alta incidência e também das múltiplas características desse transtorno depressivo, o seu reconhecimento contraria a sabedoria popular. O senso comum em relação ao período da maternidade aponta para uma crença de que essa vivência proporciona sentimentos agradáveis e prazerosos para todas as mulheres", afirma Maria da Penha. Ou seja, imersas numa cultura em que ser mãe é a realização máxima da mulher, é muito difícil para as novas mães assumirem que não estão bem e nem se sentem tão felizes como a sociedade espera que elas se sintam.
"É complicado uma mãe assumir que tem sentimentos agressivos em relação ao filho, porque toda a sociedade espera um comportamento diferente. Mas é isso que acontece nesse período. Por isso a importância do acompanhamento médico e psicológico", explica o médico David Pares, responsável pelo setor de medicina fetal do Laboratório Fleury. "Quando os sintomas e os sentimentos negativos não desaparecem em uma ou duas semanas, tempo em que é normal que eles existam, é preciso a intervenção do psiquiatra e do terapeuta", explica ele, que reforça a necessidade de apoio por parte da família e do pai da criança.
Atualmente, os médicos receitam antidepressivos para mulheres que amamentam - a substância é transmitida pelo leite para o bebê, mas segundo os médicos seus efeitos não são nocivos para a criança.
A administradora de empresas Helena Corsário, de 29 anos, tomou por mais de um ano um desses remédios. "Eu amamentava chorando", diz. "E achava que era assim mesmo, que ficaria infeliz. Me sentia muito culpada porque não tinha vontade de cuidar dela, nem de amamentar, nem de dar banho", afirma ela, que não tinha babá nem família por perto. Ela conta que passou quatro meses nessa situação, alternando estados de humor, até que um dia uma amiga, ao visitá-la, percebeu que alguma coisa estava errada. "Ela viu que eu não estava nem lavando o meu cabelo, estava muito ruim mesmo. E daí"Mas ainda hoje é difícil admitir que ter um filho me deixou deprimida", conta. "Você acha que ser mãe é tudo maravilhoso, tudo lindo, mas não é assim."
No caso da estudante Alessandra Aguiar Silva, de 22 anos, foi o namorado quem percebeu o problema. "Ele disse que um dia chegou em casa e me viu quase batendo no nosso filho. Ele fala que eu estava com raiva, tirando a roupa dele com força." Ela conta que no começo o namorado brigou com ela, a família não entendeu. "Eu não me lembro direito, faz um ano, mas parece mais, parece muito longe agora. Na época, parecia que queria mesmo que ele não tivesse nascido", diz.
"Hoje, meu namorado não está mais comigo e minha mãe me ajuda. E sei que meu filho é a melhor coisa da minha vida. "
ESPECIALISTA PROPÕE PRÉ-NATAL PSICOLÓGICO:
Alessandra da Rocha Arrais, da UnB, acredita que deveria haver um preparo maior das equipes de saúde sobre essa questão. "Tanto no pré quanto no pós-natal, as tradicionais consultas deveriam ter seu foco ampliado para as questões emocionais, culturais e sociais envolvidas na maternidade"[...] "As mulheres de hoje têm outros interesses, desejos, informações, expectativas, outras alternativas para se realizarem como mulher, que não estão mais restritas à maternidade"
Um outro lado da maternidade, distante do mundo cor-de-rosa dos filmes, dos sonhos adolescentes e dos comerciais de televisão, tem aparecido com maior freqüência na vida de mães e bebês paulistanos, segundo pesquisa do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). Ao acompanhar as consultas de pré-natal, o parto e os retornos de mulheres atendidas em hospitais públicos da cidade, aplicando um questionário padrão e uma avaliação, o trabalho encontrou uma incidência de depressão pós-parto em 32% a 35% delas - um número três vezes mais alto do que o identificado na literatura médica internacional, que varia de 10% a 15%.
São mulheres que, em vez dos sorrisos constantes pela felicidade de ter um bebê em casa, como elas e as famílias provavelmente esperavam, se deparam com crises de choro, irritação permanente, dificuldades para dormir e comer, sensação de desamparo e tristeza e falta de apetite sexual - nos casos mais graves, podem ocorrer tentativas de suicídio e atos de violência contra a criança. Além disso, sentem raiva do bebê, o culpam por sua situação e, muitas vezes, acabam sendo negligentes em relação aos cuidados de que a criança necessita, tratando-a como um fardo. Esse conjunto de sintomas pode aparecer nos primeiros dias após o parto e, se não for cuidado, persistir por até um ano.
E não são só as mulheres que sofrem com essa situação. Uma série de pesquisas indica que essa falta de contato com a mãe nas primeiras semanas traz conseqüências para o desenvolvimento físico e neuromotor da criança, persistindo nos anos seguintes: interagem menos com adultos, estabelecem menos relações afetivas e têm níveis mais altos de hormônios relacionados ao stress no organismo.
"O índice de depressão pós-parto que encontramos nas mulheres atendidas foi realmente alto, três vezes maior do que o descrito na literatura médica, e por isso partimos para análise dos fatores que poderiam influenciar no comportamento dessas mulheres", explica a pediatra Maria Teresa Zulini da Costa, pós-doutoranda na USP e uma das pesquisadoras do projeto, coordenado pelas psicólogas Emma Otta e Vera Silvia Raad Bussab. "Encontramos, entre mulheres com depressão pós-parto, um número alto de gestações não programadas e não desejadas, falta de estrutura doméstica, ausência do pai da criança. São mães que acabam tendo de arcar sozinhas com a maternidade", diz.
Outro fator que evidencia a influência do aspecto socioeconômico na depressão pós-parto é o fato de, em um grupo de mulheres atendidas pela pesquisa em hospitais privados de São Paulo, a incidência do transtorno não ultrapassar os 7%. Ressalve-se que, ainda assim, é uma taxa significativa que mostra que a condição econômica e de infra-estrutura não explica, sozinha, o transtorno.
O alto índice de depressão pós-parto em mulheres de renda mais baixa também foi constatado em um estudo com um universo menor de mulheres, feito na Universidade Federal da Paraíba pelas pesquisadoras Evelyn de Albuquerque Saraiva e Maria da Penha Coutinho. Ao acompanhar 84 mães usuárias de um serviço público de saúde, perceberam que cerca de 30% delas apresentavam o conjunto de sintomas.
"Apesar da alta incidência e também das múltiplas características desse transtorno depressivo, o seu reconhecimento contraria a sabedoria popular. O senso comum em relação ao período da maternidade aponta para uma crença de que essa vivência proporciona sentimentos agradáveis e prazerosos para todas as mulheres", afirma Maria da Penha. Ou seja, imersas numa cultura em que ser mãe é a realização máxima da mulher, é muito difícil para as novas mães assumirem que não estão bem e nem se sentem tão felizes como a sociedade espera que elas se sintam.
"É complicado uma mãe assumir que tem sentimentos agressivos em relação ao filho, porque toda a sociedade espera um comportamento diferente. Mas é isso que acontece nesse período. Por isso a importância do acompanhamento médico e psicológico", explica o médico David Pares, responsável pelo setor de medicina fetal do Laboratório Fleury. "Quando os sintomas e os sentimentos negativos não desaparecem em uma ou duas semanas, tempo em que é normal que eles existam, é preciso a intervenção do psiquiatra e do terapeuta", explica ele, que reforça a necessidade de apoio por parte da família e do pai da criança.
Atualmente, os médicos receitam antidepressivos para mulheres que amamentam - a substância é transmitida pelo leite para o bebê, mas segundo os médicos seus efeitos não são nocivos para a criança.
A administradora de empresas Helena Corsário, de 29 anos, tomou por mais de um ano um desses remédios. "Eu amamentava chorando", diz. "E achava que era assim mesmo, que ficaria infeliz. Me sentia muito culpada porque não tinha vontade de cuidar dela, nem de amamentar, nem de dar banho", afirma ela, que não tinha babá nem família por perto. Ela conta que passou quatro meses nessa situação, alternando estados de humor, até que um dia uma amiga, ao visitá-la, percebeu que alguma coisa estava errada. "Ela viu que eu não estava nem lavando o meu cabelo, estava muito ruim mesmo. E daí"Mas ainda hoje é difícil admitir que ter um filho me deixou deprimida", conta. "Você acha que ser mãe é tudo maravilhoso, tudo lindo, mas não é assim."
No caso da estudante Alessandra Aguiar Silva, de 22 anos, foi o namorado quem percebeu o problema. "Ele disse que um dia chegou em casa e me viu quase batendo no nosso filho. Ele fala que eu estava com raiva, tirando a roupa dele com força." Ela conta que no começo o namorado brigou com ela, a família não entendeu. "Eu não me lembro direito, faz um ano, mas parece mais, parece muito longe agora. Na época, parecia que queria mesmo que ele não tivesse nascido", diz.
"Hoje, meu namorado não está mais comigo e minha mãe me ajuda. E sei que meu filho é a melhor coisa da minha vida. "
ESPECIALISTA PROPÕE PRÉ-NATAL PSICOLÓGICO:
Alessandra da Rocha Arrais, da UnB, acredita que deveria haver um preparo maior das equipes de saúde sobre essa questão. "Tanto no pré quanto no pós-natal, as tradicionais consultas deveriam ter seu foco ampliado para as questões emocionais, culturais e sociais envolvidas na maternidade"[...] "As mulheres de hoje têm outros interesses, desejos, informações, expectativas, outras alternativas para se realizarem como mulher, que não estão mais restritas à maternidade"
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Cheiro de filho, cheiro de mãe
A tendendo a pedidos, levo meu filho de quatro anos para sua cama e fico lá deitada até que ele adormeça. Por mais que o banho seja recente, o menininho sua horrores, sobretudo ao adormecer, e logo tem a face e o pescoço encharcados. O sabonete não resiste e é rapidamente sobrepujado pelo cheiro natural do meu filho, que eu acho... absoluta e deliciosamente inebriante. Afundo meu nariz em seu cangotinho adormecido e penso que poderia ficar lá para sempre, desfrutando da sensação de conforto, paz e completude que o cheiro do meu filho suado a milímetros do meu nariz me dá. Passo na cama ao lado e constato que o cheiro da testa suada de minha filha tem igual efeito sobre mim.
O mesmo cheiro não funciona para todo mundo, é claro -e a idéia é justamente essa. O sistema que lida com cheiros no cérebro da mãe é modificado no parto, quando o bulbo olfatório aprende a dar atenção especial à combinação específica de moléculas desprendidas pelo filho. Como essas moléculas incluem peptídeos indicadores de nossa identidade genômica, o cheiro de uma criança pode ser considerado uma forma de análise genética feita pelo nariz da mãe, que identifica aquela criança como sua. O cérebro da criança faz o mesmo, aprendendo a responder de forma especial aos cheiros da mãe -e, assim, tem início no parto o romance mais forte que se conhece: a relação amorosa entre mãe e filho.
A informação é passada à amígdala do cérebro, que dá início a um conjunto todo especial de respostas fisiológicas e comportamentais que são a base dos efeitos sociais do cheiro de um filho. Parte desses efeitos sociais envolve a ativação do sistema de recompensa, que associa àquele cheiro particular uma sensação ímpar de prazer que, quando evocada por antecipação, serve como motivação para fazermos o necessário para estarmos na presença daquele cheiro de novo -ou seja, de nossos filhos.
O valor do cheiro das crianças para a formação de elos afetivos, porém, não é exclusivo às mães e pode ser desenvolvido também por quem não as deu à luz pessoalmente, mas se afeiçoa às crianças assim mesmo. Como parte de minhas investigações informais, ligo para meu pai e interrompo seu trabalho com uma pergunta meio insólita: o cheiro dos seus netos suados é para ele: a) neutro, b) maravilhoso ou c) fedido? Ele ri e responde na lata, enfático: "É absolutamente delicioso..."
O mesmo cheiro não funciona para todo mundo, é claro -e a idéia é justamente essa. O sistema que lida com cheiros no cérebro da mãe é modificado no parto, quando o bulbo olfatório aprende a dar atenção especial à combinação específica de moléculas desprendidas pelo filho. Como essas moléculas incluem peptídeos indicadores de nossa identidade genômica, o cheiro de uma criança pode ser considerado uma forma de análise genética feita pelo nariz da mãe, que identifica aquela criança como sua. O cérebro da criança faz o mesmo, aprendendo a responder de forma especial aos cheiros da mãe -e, assim, tem início no parto o romance mais forte que se conhece: a relação amorosa entre mãe e filho.
A informação é passada à amígdala do cérebro, que dá início a um conjunto todo especial de respostas fisiológicas e comportamentais que são a base dos efeitos sociais do cheiro de um filho. Parte desses efeitos sociais envolve a ativação do sistema de recompensa, que associa àquele cheiro particular uma sensação ímpar de prazer que, quando evocada por antecipação, serve como motivação para fazermos o necessário para estarmos na presença daquele cheiro de novo -ou seja, de nossos filhos.
O valor do cheiro das crianças para a formação de elos afetivos, porém, não é exclusivo às mães e pode ser desenvolvido também por quem não as deu à luz pessoalmente, mas se afeiçoa às crianças assim mesmo. Como parte de minhas investigações informais, ligo para meu pai e interrompo seu trabalho com uma pergunta meio insólita: o cheiro dos seus netos suados é para ele: a) neutro, b) maravilhoso ou c) fedido? Ele ri e responde na lata, enfático: "É absolutamente delicioso..."
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40 razões para ter filho
Contrariando o livro francês que dá 40 razões para não ter filhos, dizemos por que achamos que ter filho hoje é melhor do que nunca
Na França, a escritora Corinne Maier lançou um livro enumerando as 40 razões para NÃO ter filhos. Virou best-seller. A onda nesse sentido é tão forte que até um insólito movimento pela extinção voluntária da humanidade anda ganhando espaço. Como eles, a gente também acha que não ter filho é o fim do mundo, mas por razões beeeeeeem diferentes...
Podemos dizer, sem medo, que filho, hoje em dia, é escolha. Escolha porque a gente tem mil recursos anticoncepcionais para evitá-los, porque as técnicas de reprodução assistida estão aí, poderosas, ajudando muito quem tem dificuldades fisiológicas, porque sempre existe a opção superbacana de adotar uma criança.
É óbvio que ter filho não é uma obrigação. Muitas vezes, não rola mesmo. Faltam condições financeiras, físicas ou emocionais – e é isso aí, a vida é assim.
Mas o que a gente vem observando é que as famílias estão cada vez menores e muitos casais simplesmente optam por não ter filhos e ponto.
Há 40 anos, as mulheres queriam casar logo, antes dos 21 anos, e ter pelo menos três filhos. A média de filhos por família chegava a seis! Hoje, está na casa dos 2,4.
Na França, acaba de sair este livro defendendo o direito de não ter filhos: No Kid, Quarante Raisons de Nes Pas Avoir d’Enfant, da franco-suíça Corinne Maier. O que ela basicamente diz é que a sociedade atual espera muito dos pais. E questiona: “Não há outros meios de dar sentido à vida?”
Se a gente levar essa conversa ao extremo, vamos dar de cara até com o Movimento de Extinção Voluntária da Humanidade, que existe sim, é real, e anda convocando os seres humanos a parar de se reproduzir, causando a extinção gradual da espécie. A gente aqui na Pais e Filhos acha isso tudo uma loucura.
Para nós, não ter filhos é desperdiçar uma oportunidade luxuosa de nos tornarmos seres humanos melhores. Listar 40 razões para ter filhos foi tarefa fácil demais. Elas estão aí. Poderíamos fazer mais 40 e ainda outras 40, mas este já é um bom começo.
1. Por que você quer. E muito
A gente não acha que ninguém é obrigado a ter filho, claro. Só tem de ter mesmo quem quer de verdade. E hoje isso é mais do que possível. A pílula é um pouco mais velha que a Pais e Filhos – chegou ao Brasil em 1962. Mesmo com todos os recursos que existem, 20% dos bebês no país nascem de mães com menos de 20 anos, e tem coisa errada aí. A gravidez nasce de um desejo (pode ser o de ter um lugar dentro da sociedade), e, para muitas jovens, acaba sendo o de ser mãe. O que a gente defende é que esse desejo seja consciente e venha na hora certa. Filho só pode ter a função de ser filho.
2. Para deixar de ser só filho
E crescer! Básico: se você não tem filho, nunca deixa de ser filho. E aí, o seu crescimento é mais lento e mais difícil. Claro ue a gente não deixa de ser filho nunca, mas deixar de ser SÓ filho amplia, abre possibilidades novas, importantes, ricas. Filho nos traz essa oportunidade de nos tornarmos adultos de verdade.
3. Para entender melhor seus pais
Paul Reiser, da série Mad About You, tem um livro sensacional sobre a paternidade, chamado Vida de Bebê. Na dedicatória, ele entrega: “Para meus pais, com todo o amor do mundo. Acho que agora eu entendi”.
4. Para descobrir uma imensa e surpreendente capacidade de amar
Quando temos filho, somos apresentados a esse tal de amor incondicional. “Passamos por uma renovação e ampliação do repertório emocional, que é o que faz a vida interessante”, diz a psicoterapeuta Lidia Aratangy, mãe de Claudia, Silvia, Ucha e Sergio.
5. Para incluir mais gente numa história de amor que dá certo
Ser casado sem filho é quase como ser solteiro: pode não fazer almoço um dia e tudo bem etc. etc. etc. Com criança no pedaço, a casa tem de ser reorganizada, não dá mais pra ter só água na geladeira... O mais importante: você precisa dividir e respeitar as decisões do parceiro sobre o filho também. Se tiver bases sólidas, a união pode ficar mais forte com tudo isso. Vocês deixaram de ser casal para ser família. Um grande e maravilhoso passo! E mesmo quem tem filho sozinho: o filho traz esse sentido de família e a gente valoriza isso demais.
6. Para deixar de ser adolescente
Hoje, a gente vive mais e tem gente dizendo que os 30 são os novos 20, mas não dá para usar isso como desculpa para não amadurecer. Na adolescência, alguns de nós juramos que nunca vamos ter filhos, coisa da fase mesmo. O escritor britânico Ian Sansom, autor do livro De A a Z, A Verdade Sobre os Bebês, escreve: “Existe algo esquisito nas famílias. Existe algo triste nas famílias. Existe algo tão triste nas famílias que nos faz sair correndo para formar outras famílias.” É meio dramático, mas mostra que é possível reinventar a nossa história, outra lição que os filhos nos dão...
7. Para sentir o poder de gerar outra pessoa
Saber que você pode gerar um novo ser é mágico. Não é à toa que as mulheres sempre foram vistas assim meio como bruxas, exatamente por causa disso. Ver a barriga crescer, sentir os primeiros movimentos da criança, é incrível. Apesar de a gente achar que, no fundo, no fundo, gravidez não faz ninguém ser mãe de verdade. É uma delícia e tal, mas, na hora que o bebê nasce é que começa a história pra valer.
8. Para aprender a respeitar as diferenças
Por mais que você seja rígido na educação, é bom baixar a bola: seu filho nunca vai ser exatamente da forma como você imagina – e ainda bem, aleluia! Se você prestar bem atenção, vai perceber isso desde o primeiro momento: na primeira hora em que pegamos a criança no colo, já vem a sensação meio estranha: “Nossa, ele é outra pessoa!”. Que bom que é. E perceber quem é essa pessoa é o melhor da história toda, é o grande lance. Descobrir o temperamento do seu filho, ir sacando como ele funciona, como reage, o que gosta, o que não gosta... Junto com isso, aprender a respeitar e ajudá-lo a ser do jeito dele é maravilhoso. E, se a gente conseguir levar um pouco dessa experiência pras outras relações que temos na vida, então... Nossa! Melhor ainda!
9. Pra se emocionar com as conquistas dele
A primeira vez que ele consegue engatinhar, andar... Quando escreve o nome, com as letras ao contrário ainda... Desde os anos 60, muita coisa mudou, somos a geração do “muito bem!” a cada passo da criança. Mas é importante saber que ele não vai ser o campeão sempre, claro. Então, deixe seu filho tentar, testar, errar. Acertar vai ser conseqüência. E o que importa é o processo, não esqueça que isso vale pros filhos também...
10. Para aprender que as coisas são como são, nem tudo é perfeito. E tudo bem!
Ter filhos é golpe mortal no perfeccionismo, não tem jeito. As coisas vivem fugindo do roteiro o tempo todo. Você planeja dar a papinha ao meio-dia, ele cai no sono. Vai dar banho às 19h, ele já dormiu. Claro, a gente precisa ter organização, um mínimo de estrutura, mas também precisa aprender a se adaptar rapidinho, senão aí é que dança.
11. Para tomar mais cuidado com você mesmo
Não é à toa que quem tem filho pequeno paga menos na hora de fazer o seguro do carro! As seguradoras sabem muito bem que esse público tem menos tendência a se acidentar, porque é mais cuidadoso mesmo. Quando recebemos o resultado positivo já cai a ficha de que, dali pra frente, você não está mais sozinho...
12. Aceitar a maturidade com tranqüilidade
A expectativa de vida cresce a passos largos. Hoje, é de 71,7 anos no Brasil. Em 1960, ficava na casa dos 50,4. Por outro lado, vivemos numa sociedade que supervaloriza a juventude. Mas a gente envelhece mesmo, e isso é muito bom, cada fase da vida tem sua beleza. Com os filhos, isso fica mais claro. A gente não precisa ser eternamente jovem, podemos curtir a juventude deles. A passagem do tempo ganha um outro sentido.
13. Para poder, um dia, ser avó ou avô
Claro que ser avó ou avô não depende da gente, depende de os filhos quererem ser pais. Mas, se a gente fizer a nossa parte direitinho, as chances crescem. Se não tivermos filhos, por exemplo... A chance fica nula de verdade.
14. Para cuidar de alguém
“Um dia, há muitos anos, encontrei uma garotinha de 3 anos que me perguntou: ‘Você tem filhos?’. ‘Não’, respondi. ‘Você tem cachorro?’ ‘Não’, disse. E ela: ′Então, afinal, do que você cuida?′”, nos conta o psicólogo André Trindade, pai de criação de Gabriel e Laura. Ele diz que criar, cuidar, fazer crescer, acompanhar, proteger e se responsabilizar por alguém alimentam a criatividade em nós. A gente concorda total.
15. Para deixar de ser o centro da própria vida
A criança é egocêntrica por definição. No começo, acha que o mundo e ela são a mesma coisa. Depois, acredita que o mundo gira em torno dela. Demora pra perceber que não é bem assim. Tem uns que não percebem nunca, aliás... Nem depois de grandes! Ter filho ajuda a fazer essa ficha cair.
16. Para rever suas prioridades
Segundo pesquisa feita pela psicóloga Cecília Russo Troiano, mãe de Beatriz e Gabriel, publicada no livro Vida de Equilibrista – Dores e Delícias da Mãe que Trabalha (ed. Cultrix), 30% das mães dizem que adiaram o plano de ter filhos por causa da carreira. O mundo mudou, as mulheres não trabalham só por escolha, mas por necessidade. Porém, como diz uma das entrevistadas de Cecilia, uma mãe do Rio Grande do Sul, “não ter filho por causa do trabalho não tem sentido”.
17. Ter um bom motivo para chegar mais cedo em casa
Filho gosta de quantidade e qualidade. Aquele papo do “fico pouco tempo com meu filho, mas funciona” a gente sabe que não cola. É preciso estar esperto e não bobear: quanto mais tempo com eles, melhor. Férias juntos, então... Fundamental! Ou seja, o tempo passado junto é que é o grande luxo. E para ficar mais tempo com os filhos, temos de nos organizar no trabalho e fazer as coisas funcionarem melhor. É duro, mas... A verdade é que estamos bem no meio de uma transição. Se em 1976, só 20% das mulheres estavam no mercado de trabalho, hoje as trabalhadoras são mais da metade da população feminina no Brasil. Ainda são poucas as empresas que adotam horários flexíveis e programas de home office, mas elas começam a existir.
18. Ficar um tempo sem trabalhar
Pra quem não pára nunca, é uma experiência única. A licença-maternidade obrigatória no Brasil tem quatro meses desde a Constituição de 1988. Está em tramitação um projeto de lei estendendo a licença para seis meses, desde que a companhia decida aderir voluntariamente ao esquema em troca de isenção fiscal. Cerca de 40 municípios já adotam a licença maior. A licença paternidade, hoje de cinco dias, seria de 15.
19. Sentir o prazer de amamentar
Em 1975, aqui no Brasil, uma a cada duas mulheres amamentava o filho apenas até o segundo ou terceiro mês de vida. Hoje sabemos todos dos enormes benefícios do leite materno para a criança. E sentir que seu corpo é capaz de produzir o alimento de seu filho é uma experiência fantástica.
20. Sentir o prazer de dar de mamar
Se não puder amamentar, não estresse, pelo amor de Deus. Não tem de ter culpa de nada, culpa só estraga. Faça da hora da mamadeira uma hora especial, gostosa, única, de intimidade e cumplicidade.
21. Para passar pela experiência do parto
Foi durante os anos 70 que o índice de cesarianas no Brasil começou a viver este boom. Pra equilibrar o jogo, nos últimos anos vem crescendo o movimento pelo parto humanizado, com o mínimo de intervenção médica. De novo, não precisa radicalizar: anestesia está aí para ser usada sempre que necessário e ninguém aqui está defendendo sofrimento. O que a gente sabe é que, com ou sem ela, o parto é um daqueles momentos fundadores, em que a vida se renova e a gente nasce de novo, junto com o filho.
22. Para conhecer a pessoa mais linda do mundo
O poeta alemão Hölderin dizia sobre a infância: "É integralmente aquilo que é e, portanto, é bela". Filho é sempre lindo. O nosso, muito mais que o dos outros, sempre. E tem de ser assim.
23. Para ouvir alguém te chamar de mãe ou pai
Pode parecer a coisa mais babaca do universo, mas que é demais, é. Não tem o que falar. Você sabe o que é isso...
24. Reviver um pouco da sua própria infância, ou tirar uma casquinha da infância deles...
“Lembro das primeiras férias de verão com meus filhos, relembrei das minhas. São lembranças que voltam, deliciosamente”, conta nossa colunista Patrícia Broggi, mãe de Luca e Tiago. Ter de brincar com eles, desenhar, cantar, esperar o Papai Noel, a fada do Dente, ler histórias, ver filmes maravilhosos... Ah, que alegria! Você só tem a ganhar!
25. Comprar brinquedos incríveis para eles e para você
Em 1894, um tal dr. L.E. Holt dizia, com a maior autoridade: “Com crianças de menos de 6 meses de idade não se deve brincar jamais. Nas idades posteriores, quanto menos se brincar, melhor”. Ainda bem que, hoje, a gente sabe que brincar é fundamental para eles. Volta e meia a gente usa isso como desculpa pra comprar aquele carrinho de controle remoto que eles vão adorar. E que você já adorou. Tudo bem, tá tudo certo. Afinal, esses brinquedos maravilhosos não existiam quando a gente era criança, certo? Então, por que não aproveitar também?
26. Para se renovar e rejuvenescer
Ter filho é comprovar a validade da lei do eterno retorno. “Acompanhar uma criança permite retomar em nós aquilo que fomos. Há uma sabedoria infantil que conta com a espontaneidade, com a vontade de descobrir o mundo e com a capacidade de brincar. Quando o adulto consegue recuperar em si essas atitudes, ele se beneficia enormemente”, diz o psicólogo André Trindade.
27. Para entender de uma vez que preocupação com ambiente não é coisa de ecochato
A gente sabe: as previsões são catastróficas. Metade da Amazônia pode dançar até 2030, temperatura subindo, calotas derretendo... Ter filho torna a coisa ainda mais urgente, porque a gente quer que o mundo exista pra eles, certo? O que não dá é para acreditar em tudo, se imobilizar e resolver que já acabou e não tem mais o que fazer. Tem, sim, e muito. Pra começar, dentro da sua casa mesmo, na sua vida cotidiana. As próprias crianças estão nos ensinando que tem de cuidar pra ter.
28. Para adquirir hábitos mais saudáveis
Com criança em casa a gente revê tudo. Aprendemos, ou reaprendemos e confirmamos, que não precisa de açúcar porque fruta já é doce, que sal tem de ser bem pouquinho, trocamos fritura por grelhado, porque o médico falou, porque a gente leu que é bom. Hoje, estudando o histórico familiar, os pediatras conseguem prevenir uma série de problemas, fazendo ajustes na dieta: se há tendência a alergias, certos alimentos podem ser evitados etc. E, quando a gente vê, está comendo direito esse cuidando mais, junto com eles. A teoria tem muito mais chance de virar prática.
29. Para descobrir seu lado meio médico
Sabe aquele talento que mãe tem pra saber o que a criança tem só de olhar e a gente acha impressionante? Logo logo você também passa a ter, você vai ver. Ninguém aqui está falando de se automedicar ou sair usando remédio que nem louca, a torto e a direito, nada disso. Tem de ligar pro médico sempre, isso é básico. Mas ao menos você fica conhecendo os sintomas e já passa o serviço mais completo. E, logo, você vai ser aquela pessoa no trabalho pra quem a colega pede pra ver se está com febre mesmo. Coisa de mãe. Ou pai.
30. Pra sentir um certo gostinho de continuidade
O comediante norte-americano Jerry Seinfeld, que a gente adora, disse uma vez: “Já sei o que esses bebês estão fazendo aí. Eles estão aí pra nos substituir”. É piada, óbvio, mas ter filhos, de certa forma, é apostar numa sucessão, em uma continuidade. Você assistiu ao filme Rei Leão? Sabe aquela coisa de pertencer, de estar dentro do ciclo da vida, de ser elo de uma cadeia? É por aí, e é bacana....
31. Descobrir que você sabe contar histórias
A escritora e tradutora Lya Luft descobriu que sabia contar histórias para crianças depois que se tornou avó, e até já escreveu dois livros para crianças, em que a personagem principal é ela mesma, uma bruxa boa. Claro que não é todo mundo que tem o talento dela, mas, quando temos filho, parece que é quase natural: a gente se vê relembrando histórias da infância, inventando a partir do nada ou do mote que eles nos dão... E solta um pouco a imaginação, a fantasia... Lidar com o lúdico, né? Coisas que só fazem bem.
32. Para olhar para as coisas de novo, como pela primeira vez
“Aprendi com meu filho de dez anos/que a poesia é a descoberta/das coisas que eu nunca vi”. Esses versos de Oswald de Andrade (1890-1954) resumem tudo o que a gente quer dizer. É fácil cair nessa cilada de crescer e ir deixando de se surpreender com as coisas e ligar um tipo de piloto-automático – tudo em nome de, sei lá, um suposto “facilitar a vida”, que, no final das contas, é perder o milagre que a vida é. O filho nos ajuda a trazer tudo isso de volta. O mundo ganha novos sentidos e tudo começa outra vez a cada nova descoberta dele e sua...
33. Ter um motivo para aprender a cozinhar
Há 40 anos, a frase “já pode casar”, quando alguma mulher servia um prato saboroso, não era pejorativa, não. Mulher tinha de saber pilotar forno e fogão, era uma espécie de pré-requisito. Hoje a gente pira na hora que tem de fazer a primeira papinha do filho, é ou não é? Acontece que cozinhar pode ser uma enorme delícia e nunca é tarde pra aprender.
34. Porque o pai hoje participa de tudo
Nos anos 70, o pai ficava fora da sala de parto, não chegava nem perto de uma mamadeira, não pegava em fralda de jeito nenhum e era “chamado” só na hora de uma bronca mais pesada. Estranho? Na sua casa não é assim? Ainda bem! A pesquisa de Cecília Russo Troiano mostra que a coisa foi mudando aos poucos, sim, mas as mulheres ainda realizam a maior parte das tarefas. Por exemplo: enquanto 91% das mães levam o filho ao médico, só 4% dos pais fazem o mesmo!!! Ok, ok, falta bastante para as coisas se equilibrarem mais, mas o espaço foi aberto e isso é um ganho enorme.
35. Porque a medicina evoluiu muito
E isso é muito mais importante do que a gente pensa à primeira vista. Hoje é possível prevenir um monte de doenças, tem vacina contra gripe, rotavírus, hepatite... Se no final dos anos 60 os primeiros aparelhos de ultrasom ainda estavam chegando ao Brasil, hoje temos ultra-som 4D, os avanços das pesquisas de células-tronco não param de nos surpreender e se fala em terapias genéticas para parar doenças como o câncer. Temos mais é que comemorar, e muito.
36. Para sentir o que é ter alguém que confia 100% em você
O que é confiar, o que é confiança? Você sabe direitinho a resposta – e sente o que é isso ali, na pele – quando tem uma criança dormindo no seu colo, totalmente entregue. É maravilhoso, assim como a responsabilidade, que até pode assustar, mas faz parte: ter filho é também aprender a lidar com isso.
37. Encarar o futuro de uma nova maneira
Sim, porque, quando os filhos chegam, esse conceito deixa de ser uma abstração. A gente não pode mais só esperar que ele chegue; a gente tem de prepará-lo a cada dia. Pode ser nas coisas mais concretas, como se programando financeiramente, fazendo previdência, essas coisas. E também se preocupando em votar em políticos bacanas, entrando pra uma ONG, separando o lixo, o que for.
38. Para ter a enorme chance de se tornar um ser humano melhor
Não adianta fazer discurso: criança se espelha no exemplo, não tem jeito. É como você é e como se comporta que vai fazer diferença. É no seu comportamento que seu filho está ligado e é o que ele vai registrando, não tem conversa nenhuma. Falar uma coisa e fazer outra não dá. Ter filho é agüentar a barra do que a gente é, as conseqüências de ser quem somos e das escolhas que fazemos.
39. Ter filho não é dar à luz, é receber iluminação diária
Foi nossa colunista Tetê Pacheco, mãe de Bento e Otto, quem escreveu isso, aqui na Pais e Filhos. A gente assina embaixo. O tanto que se aprende, que nos modificamos e crescemos... É pra agradecer todo dia!
40. Porque seu filho é único e tudo que você sente em relação a ele é intraduzível...
Tem gente que diz que a escolha de ter filhos é difícil porque é definitiva... Bem, definitivo, para nós, é não ter filhos! E cada um vai descobrir seu jeito de ser pai e mãe, não tem uma receita. Cada universo único que uma vida é. Nós, aqui da Pais e Filhos, só podemos mais uma vez dizer o que a gente vem falando desde sempre, até na missão da nossa revista: aproveite tudo que a maternidade ou a paternidade está te trazendo!
Na França, a escritora Corinne Maier lançou um livro enumerando as 40 razões para NÃO ter filhos. Virou best-seller. A onda nesse sentido é tão forte que até um insólito movimento pela extinção voluntária da humanidade anda ganhando espaço. Como eles, a gente também acha que não ter filho é o fim do mundo, mas por razões beeeeeeem diferentes...
Podemos dizer, sem medo, que filho, hoje em dia, é escolha. Escolha porque a gente tem mil recursos anticoncepcionais para evitá-los, porque as técnicas de reprodução assistida estão aí, poderosas, ajudando muito quem tem dificuldades fisiológicas, porque sempre existe a opção superbacana de adotar uma criança.
É óbvio que ter filho não é uma obrigação. Muitas vezes, não rola mesmo. Faltam condições financeiras, físicas ou emocionais – e é isso aí, a vida é assim.
Mas o que a gente vem observando é que as famílias estão cada vez menores e muitos casais simplesmente optam por não ter filhos e ponto.
Há 40 anos, as mulheres queriam casar logo, antes dos 21 anos, e ter pelo menos três filhos. A média de filhos por família chegava a seis! Hoje, está na casa dos 2,4.
Na França, acaba de sair este livro defendendo o direito de não ter filhos: No Kid, Quarante Raisons de Nes Pas Avoir d’Enfant, da franco-suíça Corinne Maier. O que ela basicamente diz é que a sociedade atual espera muito dos pais. E questiona: “Não há outros meios de dar sentido à vida?”
Se a gente levar essa conversa ao extremo, vamos dar de cara até com o Movimento de Extinção Voluntária da Humanidade, que existe sim, é real, e anda convocando os seres humanos a parar de se reproduzir, causando a extinção gradual da espécie. A gente aqui na Pais e Filhos acha isso tudo uma loucura.
Para nós, não ter filhos é desperdiçar uma oportunidade luxuosa de nos tornarmos seres humanos melhores. Listar 40 razões para ter filhos foi tarefa fácil demais. Elas estão aí. Poderíamos fazer mais 40 e ainda outras 40, mas este já é um bom começo.
1. Por que você quer. E muito
A gente não acha que ninguém é obrigado a ter filho, claro. Só tem de ter mesmo quem quer de verdade. E hoje isso é mais do que possível. A pílula é um pouco mais velha que a Pais e Filhos – chegou ao Brasil em 1962. Mesmo com todos os recursos que existem, 20% dos bebês no país nascem de mães com menos de 20 anos, e tem coisa errada aí. A gravidez nasce de um desejo (pode ser o de ter um lugar dentro da sociedade), e, para muitas jovens, acaba sendo o de ser mãe. O que a gente defende é que esse desejo seja consciente e venha na hora certa. Filho só pode ter a função de ser filho.
2. Para deixar de ser só filho
E crescer! Básico: se você não tem filho, nunca deixa de ser filho. E aí, o seu crescimento é mais lento e mais difícil. Claro ue a gente não deixa de ser filho nunca, mas deixar de ser SÓ filho amplia, abre possibilidades novas, importantes, ricas. Filho nos traz essa oportunidade de nos tornarmos adultos de verdade.
3. Para entender melhor seus pais
Paul Reiser, da série Mad About You, tem um livro sensacional sobre a paternidade, chamado Vida de Bebê. Na dedicatória, ele entrega: “Para meus pais, com todo o amor do mundo. Acho que agora eu entendi”.
4. Para descobrir uma imensa e surpreendente capacidade de amar
Quando temos filho, somos apresentados a esse tal de amor incondicional. “Passamos por uma renovação e ampliação do repertório emocional, que é o que faz a vida interessante”, diz a psicoterapeuta Lidia Aratangy, mãe de Claudia, Silvia, Ucha e Sergio.
5. Para incluir mais gente numa história de amor que dá certo
Ser casado sem filho é quase como ser solteiro: pode não fazer almoço um dia e tudo bem etc. etc. etc. Com criança no pedaço, a casa tem de ser reorganizada, não dá mais pra ter só água na geladeira... O mais importante: você precisa dividir e respeitar as decisões do parceiro sobre o filho também. Se tiver bases sólidas, a união pode ficar mais forte com tudo isso. Vocês deixaram de ser casal para ser família. Um grande e maravilhoso passo! E mesmo quem tem filho sozinho: o filho traz esse sentido de família e a gente valoriza isso demais.
6. Para deixar de ser adolescente
Hoje, a gente vive mais e tem gente dizendo que os 30 são os novos 20, mas não dá para usar isso como desculpa para não amadurecer. Na adolescência, alguns de nós juramos que nunca vamos ter filhos, coisa da fase mesmo. O escritor britânico Ian Sansom, autor do livro De A a Z, A Verdade Sobre os Bebês, escreve: “Existe algo esquisito nas famílias. Existe algo triste nas famílias. Existe algo tão triste nas famílias que nos faz sair correndo para formar outras famílias.” É meio dramático, mas mostra que é possível reinventar a nossa história, outra lição que os filhos nos dão...
7. Para sentir o poder de gerar outra pessoa
Saber que você pode gerar um novo ser é mágico. Não é à toa que as mulheres sempre foram vistas assim meio como bruxas, exatamente por causa disso. Ver a barriga crescer, sentir os primeiros movimentos da criança, é incrível. Apesar de a gente achar que, no fundo, no fundo, gravidez não faz ninguém ser mãe de verdade. É uma delícia e tal, mas, na hora que o bebê nasce é que começa a história pra valer.
8. Para aprender a respeitar as diferenças
Por mais que você seja rígido na educação, é bom baixar a bola: seu filho nunca vai ser exatamente da forma como você imagina – e ainda bem, aleluia! Se você prestar bem atenção, vai perceber isso desde o primeiro momento: na primeira hora em que pegamos a criança no colo, já vem a sensação meio estranha: “Nossa, ele é outra pessoa!”. Que bom que é. E perceber quem é essa pessoa é o melhor da história toda, é o grande lance. Descobrir o temperamento do seu filho, ir sacando como ele funciona, como reage, o que gosta, o que não gosta... Junto com isso, aprender a respeitar e ajudá-lo a ser do jeito dele é maravilhoso. E, se a gente conseguir levar um pouco dessa experiência pras outras relações que temos na vida, então... Nossa! Melhor ainda!
9. Pra se emocionar com as conquistas dele
A primeira vez que ele consegue engatinhar, andar... Quando escreve o nome, com as letras ao contrário ainda... Desde os anos 60, muita coisa mudou, somos a geração do “muito bem!” a cada passo da criança. Mas é importante saber que ele não vai ser o campeão sempre, claro. Então, deixe seu filho tentar, testar, errar. Acertar vai ser conseqüência. E o que importa é o processo, não esqueça que isso vale pros filhos também...
10. Para aprender que as coisas são como são, nem tudo é perfeito. E tudo bem!
Ter filhos é golpe mortal no perfeccionismo, não tem jeito. As coisas vivem fugindo do roteiro o tempo todo. Você planeja dar a papinha ao meio-dia, ele cai no sono. Vai dar banho às 19h, ele já dormiu. Claro, a gente precisa ter organização, um mínimo de estrutura, mas também precisa aprender a se adaptar rapidinho, senão aí é que dança.
11. Para tomar mais cuidado com você mesmo
Não é à toa que quem tem filho pequeno paga menos na hora de fazer o seguro do carro! As seguradoras sabem muito bem que esse público tem menos tendência a se acidentar, porque é mais cuidadoso mesmo. Quando recebemos o resultado positivo já cai a ficha de que, dali pra frente, você não está mais sozinho...
12. Aceitar a maturidade com tranqüilidade
A expectativa de vida cresce a passos largos. Hoje, é de 71,7 anos no Brasil. Em 1960, ficava na casa dos 50,4. Por outro lado, vivemos numa sociedade que supervaloriza a juventude. Mas a gente envelhece mesmo, e isso é muito bom, cada fase da vida tem sua beleza. Com os filhos, isso fica mais claro. A gente não precisa ser eternamente jovem, podemos curtir a juventude deles. A passagem do tempo ganha um outro sentido.
13. Para poder, um dia, ser avó ou avô
Claro que ser avó ou avô não depende da gente, depende de os filhos quererem ser pais. Mas, se a gente fizer a nossa parte direitinho, as chances crescem. Se não tivermos filhos, por exemplo... A chance fica nula de verdade.
14. Para cuidar de alguém
“Um dia, há muitos anos, encontrei uma garotinha de 3 anos que me perguntou: ‘Você tem filhos?’. ‘Não’, respondi. ‘Você tem cachorro?’ ‘Não’, disse. E ela: ′Então, afinal, do que você cuida?′”, nos conta o psicólogo André Trindade, pai de criação de Gabriel e Laura. Ele diz que criar, cuidar, fazer crescer, acompanhar, proteger e se responsabilizar por alguém alimentam a criatividade em nós. A gente concorda total.
15. Para deixar de ser o centro da própria vida
A criança é egocêntrica por definição. No começo, acha que o mundo e ela são a mesma coisa. Depois, acredita que o mundo gira em torno dela. Demora pra perceber que não é bem assim. Tem uns que não percebem nunca, aliás... Nem depois de grandes! Ter filho ajuda a fazer essa ficha cair.
16. Para rever suas prioridades
Segundo pesquisa feita pela psicóloga Cecília Russo Troiano, mãe de Beatriz e Gabriel, publicada no livro Vida de Equilibrista – Dores e Delícias da Mãe que Trabalha (ed. Cultrix), 30% das mães dizem que adiaram o plano de ter filhos por causa da carreira. O mundo mudou, as mulheres não trabalham só por escolha, mas por necessidade. Porém, como diz uma das entrevistadas de Cecilia, uma mãe do Rio Grande do Sul, “não ter filho por causa do trabalho não tem sentido”.
17. Ter um bom motivo para chegar mais cedo em casa
Filho gosta de quantidade e qualidade. Aquele papo do “fico pouco tempo com meu filho, mas funciona” a gente sabe que não cola. É preciso estar esperto e não bobear: quanto mais tempo com eles, melhor. Férias juntos, então... Fundamental! Ou seja, o tempo passado junto é que é o grande luxo. E para ficar mais tempo com os filhos, temos de nos organizar no trabalho e fazer as coisas funcionarem melhor. É duro, mas... A verdade é que estamos bem no meio de uma transição. Se em 1976, só 20% das mulheres estavam no mercado de trabalho, hoje as trabalhadoras são mais da metade da população feminina no Brasil. Ainda são poucas as empresas que adotam horários flexíveis e programas de home office, mas elas começam a existir.
18. Ficar um tempo sem trabalhar
Pra quem não pára nunca, é uma experiência única. A licença-maternidade obrigatória no Brasil tem quatro meses desde a Constituição de 1988. Está em tramitação um projeto de lei estendendo a licença para seis meses, desde que a companhia decida aderir voluntariamente ao esquema em troca de isenção fiscal. Cerca de 40 municípios já adotam a licença maior. A licença paternidade, hoje de cinco dias, seria de 15.
19. Sentir o prazer de amamentar
Em 1975, aqui no Brasil, uma a cada duas mulheres amamentava o filho apenas até o segundo ou terceiro mês de vida. Hoje sabemos todos dos enormes benefícios do leite materno para a criança. E sentir que seu corpo é capaz de produzir o alimento de seu filho é uma experiência fantástica.
20. Sentir o prazer de dar de mamar
Se não puder amamentar, não estresse, pelo amor de Deus. Não tem de ter culpa de nada, culpa só estraga. Faça da hora da mamadeira uma hora especial, gostosa, única, de intimidade e cumplicidade.
21. Para passar pela experiência do parto
Foi durante os anos 70 que o índice de cesarianas no Brasil começou a viver este boom. Pra equilibrar o jogo, nos últimos anos vem crescendo o movimento pelo parto humanizado, com o mínimo de intervenção médica. De novo, não precisa radicalizar: anestesia está aí para ser usada sempre que necessário e ninguém aqui está defendendo sofrimento. O que a gente sabe é que, com ou sem ela, o parto é um daqueles momentos fundadores, em que a vida se renova e a gente nasce de novo, junto com o filho.
22. Para conhecer a pessoa mais linda do mundo
O poeta alemão Hölderin dizia sobre a infância: "É integralmente aquilo que é e, portanto, é bela". Filho é sempre lindo. O nosso, muito mais que o dos outros, sempre. E tem de ser assim.
23. Para ouvir alguém te chamar de mãe ou pai
Pode parecer a coisa mais babaca do universo, mas que é demais, é. Não tem o que falar. Você sabe o que é isso...
24. Reviver um pouco da sua própria infância, ou tirar uma casquinha da infância deles...
“Lembro das primeiras férias de verão com meus filhos, relembrei das minhas. São lembranças que voltam, deliciosamente”, conta nossa colunista Patrícia Broggi, mãe de Luca e Tiago. Ter de brincar com eles, desenhar, cantar, esperar o Papai Noel, a fada do Dente, ler histórias, ver filmes maravilhosos... Ah, que alegria! Você só tem a ganhar!
25. Comprar brinquedos incríveis para eles e para você
Em 1894, um tal dr. L.E. Holt dizia, com a maior autoridade: “Com crianças de menos de 6 meses de idade não se deve brincar jamais. Nas idades posteriores, quanto menos se brincar, melhor”. Ainda bem que, hoje, a gente sabe que brincar é fundamental para eles. Volta e meia a gente usa isso como desculpa pra comprar aquele carrinho de controle remoto que eles vão adorar. E que você já adorou. Tudo bem, tá tudo certo. Afinal, esses brinquedos maravilhosos não existiam quando a gente era criança, certo? Então, por que não aproveitar também?
26. Para se renovar e rejuvenescer
Ter filho é comprovar a validade da lei do eterno retorno. “Acompanhar uma criança permite retomar em nós aquilo que fomos. Há uma sabedoria infantil que conta com a espontaneidade, com a vontade de descobrir o mundo e com a capacidade de brincar. Quando o adulto consegue recuperar em si essas atitudes, ele se beneficia enormemente”, diz o psicólogo André Trindade.
27. Para entender de uma vez que preocupação com ambiente não é coisa de ecochato
A gente sabe: as previsões são catastróficas. Metade da Amazônia pode dançar até 2030, temperatura subindo, calotas derretendo... Ter filho torna a coisa ainda mais urgente, porque a gente quer que o mundo exista pra eles, certo? O que não dá é para acreditar em tudo, se imobilizar e resolver que já acabou e não tem mais o que fazer. Tem, sim, e muito. Pra começar, dentro da sua casa mesmo, na sua vida cotidiana. As próprias crianças estão nos ensinando que tem de cuidar pra ter.
28. Para adquirir hábitos mais saudáveis
Com criança em casa a gente revê tudo. Aprendemos, ou reaprendemos e confirmamos, que não precisa de açúcar porque fruta já é doce, que sal tem de ser bem pouquinho, trocamos fritura por grelhado, porque o médico falou, porque a gente leu que é bom. Hoje, estudando o histórico familiar, os pediatras conseguem prevenir uma série de problemas, fazendo ajustes na dieta: se há tendência a alergias, certos alimentos podem ser evitados etc. E, quando a gente vê, está comendo direito esse cuidando mais, junto com eles. A teoria tem muito mais chance de virar prática.
29. Para descobrir seu lado meio médico
Sabe aquele talento que mãe tem pra saber o que a criança tem só de olhar e a gente acha impressionante? Logo logo você também passa a ter, você vai ver. Ninguém aqui está falando de se automedicar ou sair usando remédio que nem louca, a torto e a direito, nada disso. Tem de ligar pro médico sempre, isso é básico. Mas ao menos você fica conhecendo os sintomas e já passa o serviço mais completo. E, logo, você vai ser aquela pessoa no trabalho pra quem a colega pede pra ver se está com febre mesmo. Coisa de mãe. Ou pai.
30. Pra sentir um certo gostinho de continuidade
O comediante norte-americano Jerry Seinfeld, que a gente adora, disse uma vez: “Já sei o que esses bebês estão fazendo aí. Eles estão aí pra nos substituir”. É piada, óbvio, mas ter filhos, de certa forma, é apostar numa sucessão, em uma continuidade. Você assistiu ao filme Rei Leão? Sabe aquela coisa de pertencer, de estar dentro do ciclo da vida, de ser elo de uma cadeia? É por aí, e é bacana....
31. Descobrir que você sabe contar histórias
A escritora e tradutora Lya Luft descobriu que sabia contar histórias para crianças depois que se tornou avó, e até já escreveu dois livros para crianças, em que a personagem principal é ela mesma, uma bruxa boa. Claro que não é todo mundo que tem o talento dela, mas, quando temos filho, parece que é quase natural: a gente se vê relembrando histórias da infância, inventando a partir do nada ou do mote que eles nos dão... E solta um pouco a imaginação, a fantasia... Lidar com o lúdico, né? Coisas que só fazem bem.
32. Para olhar para as coisas de novo, como pela primeira vez
“Aprendi com meu filho de dez anos/que a poesia é a descoberta/das coisas que eu nunca vi”. Esses versos de Oswald de Andrade (1890-1954) resumem tudo o que a gente quer dizer. É fácil cair nessa cilada de crescer e ir deixando de se surpreender com as coisas e ligar um tipo de piloto-automático – tudo em nome de, sei lá, um suposto “facilitar a vida”, que, no final das contas, é perder o milagre que a vida é. O filho nos ajuda a trazer tudo isso de volta. O mundo ganha novos sentidos e tudo começa outra vez a cada nova descoberta dele e sua...
33. Ter um motivo para aprender a cozinhar
Há 40 anos, a frase “já pode casar”, quando alguma mulher servia um prato saboroso, não era pejorativa, não. Mulher tinha de saber pilotar forno e fogão, era uma espécie de pré-requisito. Hoje a gente pira na hora que tem de fazer a primeira papinha do filho, é ou não é? Acontece que cozinhar pode ser uma enorme delícia e nunca é tarde pra aprender.
34. Porque o pai hoje participa de tudo
Nos anos 70, o pai ficava fora da sala de parto, não chegava nem perto de uma mamadeira, não pegava em fralda de jeito nenhum e era “chamado” só na hora de uma bronca mais pesada. Estranho? Na sua casa não é assim? Ainda bem! A pesquisa de Cecília Russo Troiano mostra que a coisa foi mudando aos poucos, sim, mas as mulheres ainda realizam a maior parte das tarefas. Por exemplo: enquanto 91% das mães levam o filho ao médico, só 4% dos pais fazem o mesmo!!! Ok, ok, falta bastante para as coisas se equilibrarem mais, mas o espaço foi aberto e isso é um ganho enorme.
35. Porque a medicina evoluiu muito
E isso é muito mais importante do que a gente pensa à primeira vista. Hoje é possível prevenir um monte de doenças, tem vacina contra gripe, rotavírus, hepatite... Se no final dos anos 60 os primeiros aparelhos de ultrasom ainda estavam chegando ao Brasil, hoje temos ultra-som 4D, os avanços das pesquisas de células-tronco não param de nos surpreender e se fala em terapias genéticas para parar doenças como o câncer. Temos mais é que comemorar, e muito.
36. Para sentir o que é ter alguém que confia 100% em você
O que é confiar, o que é confiança? Você sabe direitinho a resposta – e sente o que é isso ali, na pele – quando tem uma criança dormindo no seu colo, totalmente entregue. É maravilhoso, assim como a responsabilidade, que até pode assustar, mas faz parte: ter filho é também aprender a lidar com isso.
37. Encarar o futuro de uma nova maneira
Sim, porque, quando os filhos chegam, esse conceito deixa de ser uma abstração. A gente não pode mais só esperar que ele chegue; a gente tem de prepará-lo a cada dia. Pode ser nas coisas mais concretas, como se programando financeiramente, fazendo previdência, essas coisas. E também se preocupando em votar em políticos bacanas, entrando pra uma ONG, separando o lixo, o que for.
38. Para ter a enorme chance de se tornar um ser humano melhor
Não adianta fazer discurso: criança se espelha no exemplo, não tem jeito. É como você é e como se comporta que vai fazer diferença. É no seu comportamento que seu filho está ligado e é o que ele vai registrando, não tem conversa nenhuma. Falar uma coisa e fazer outra não dá. Ter filho é agüentar a barra do que a gente é, as conseqüências de ser quem somos e das escolhas que fazemos.
39. Ter filho não é dar à luz, é receber iluminação diária
Foi nossa colunista Tetê Pacheco, mãe de Bento e Otto, quem escreveu isso, aqui na Pais e Filhos. A gente assina embaixo. O tanto que se aprende, que nos modificamos e crescemos... É pra agradecer todo dia!
40. Porque seu filho é único e tudo que você sente em relação a ele é intraduzível...
Tem gente que diz que a escolha de ter filhos é difícil porque é definitiva... Bem, definitivo, para nós, é não ter filhos! E cada um vai descobrir seu jeito de ser pai e mãe, não tem uma receita. Cada universo único que uma vida é. Nós, aqui da Pais e Filhos, só podemos mais uma vez dizer o que a gente vem falando desde sempre, até na missão da nossa revista: aproveite tudo que a maternidade ou a paternidade está te trazendo!
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Liberdade feminina x maternidade
Mães reclamam do cansaço que provoca a dedicação ao trabalho e o cuidado com os filhos. Elas querem férias deles também.
Conversei com a mãe de uma garotinha que completa três anos neste semestre e que foi matriculada na escola pela primeira vez no início do ano. O problema, segundo a mãe, é que a menina fica desesperada na hora de ir para a escola e chora o tempo todo que lá fica.
Durante nossa conversa, essa jovem mulher disse que está esgotada porque preferiria não levar a filha para a escola, mas não tem escolha por causa do horário de trabalho e da indisponibilidade de sua mãe, que, até então, dera conta de ficar com a neta. Essa mãe não está sozinha ao viver esse dilema, não é verdade?
Uma pesquisa recente apontou que bebês de até quatro meses têm sido alimentados com comida industrializada com frequência. Que tal uma lasanha congelada no almoço e umas bolachas recheadas para o lanche dessas crianças? Mães de todas as classes sociais têm feito isso e um dos motivos é que não sabem cozinhar.
Um número enorme de mães reclama do cansaço que provoca a dedicação ao trabalho e o cuidado com os filhos. Elas querem férias deles também, como têm no trabalho. Babás trabalham diuturnamente para muitas mulheres que não dispensam folguistas nem nos feriados. Alguns pediatras informam que muitos bebês e crianças vão ao consultório acompanhados apenas de suas babás.
Em salões de beleza, é comum encontrar mulheres acompanhadas das filhas pequenas que se inquietam, choram, fazem birra. O mesmo ocorre em restaurantes, shoppings, aeroportos etc.
Com a proximidade do Dia Internacional da Mulher, esses dados e outros devem nos fazer refletir sobre a liberdade da mulher no mundo atual.
Em tempos em que a mulher pode marcar presença em quase todos os segmentos profissionais, pode ter filhos casada ou não, com parceiro ou não, pode estabelecer e romper relações amorosas quando quiser, pode cultivar sua aparência de acordo com seus anseios e disponibilidade financeira, ter autonomia econômica etc., parece que desfruta de uma liberdade sem fronteiras.
O problema é que nem sempre a mulher reconhece que muito do que faz não é por escolha. Sim. Na atualidade, ela está submetida às mais variadas pressões, muitas delas tão sutis que se travestem de seus propósitos pessoais. Conhece o ditado popular "o que não tem remédio, remediado está"? Podemos transformar em "o que não tem escolha, escolhido está" no caso das mulheres.
Como liberdade é poder escolher, conseguir realizar sua opção e abdicar das outras, podemos dizer que a liberdade feminina anda plena de restrições. E, depois da fase "mulher maravilha", o cansaço bateu.
O que fazer com os filhos que precisam da disponibilidade (não da presença física) em tempo integral da mãe, com os anos que passam e com a aparência física que perde o frescor, com os embates competitivos no campo profissional que desgastam e sugam energia, com as obrigações sociais, com a solidão habitada por multidões de "amigos"?
E agora, Maria?
Conversei com a mãe de uma garotinha que completa três anos neste semestre e que foi matriculada na escola pela primeira vez no início do ano. O problema, segundo a mãe, é que a menina fica desesperada na hora de ir para a escola e chora o tempo todo que lá fica.
Durante nossa conversa, essa jovem mulher disse que está esgotada porque preferiria não levar a filha para a escola, mas não tem escolha por causa do horário de trabalho e da indisponibilidade de sua mãe, que, até então, dera conta de ficar com a neta. Essa mãe não está sozinha ao viver esse dilema, não é verdade?
Uma pesquisa recente apontou que bebês de até quatro meses têm sido alimentados com comida industrializada com frequência. Que tal uma lasanha congelada no almoço e umas bolachas recheadas para o lanche dessas crianças? Mães de todas as classes sociais têm feito isso e um dos motivos é que não sabem cozinhar.
Um número enorme de mães reclama do cansaço que provoca a dedicação ao trabalho e o cuidado com os filhos. Elas querem férias deles também, como têm no trabalho. Babás trabalham diuturnamente para muitas mulheres que não dispensam folguistas nem nos feriados. Alguns pediatras informam que muitos bebês e crianças vão ao consultório acompanhados apenas de suas babás.
Em salões de beleza, é comum encontrar mulheres acompanhadas das filhas pequenas que se inquietam, choram, fazem birra. O mesmo ocorre em restaurantes, shoppings, aeroportos etc.
Com a proximidade do Dia Internacional da Mulher, esses dados e outros devem nos fazer refletir sobre a liberdade da mulher no mundo atual.
Em tempos em que a mulher pode marcar presença em quase todos os segmentos profissionais, pode ter filhos casada ou não, com parceiro ou não, pode estabelecer e romper relações amorosas quando quiser, pode cultivar sua aparência de acordo com seus anseios e disponibilidade financeira, ter autonomia econômica etc., parece que desfruta de uma liberdade sem fronteiras.
O problema é que nem sempre a mulher reconhece que muito do que faz não é por escolha. Sim. Na atualidade, ela está submetida às mais variadas pressões, muitas delas tão sutis que se travestem de seus propósitos pessoais. Conhece o ditado popular "o que não tem remédio, remediado está"? Podemos transformar em "o que não tem escolha, escolhido está" no caso das mulheres.
Como liberdade é poder escolher, conseguir realizar sua opção e abdicar das outras, podemos dizer que a liberdade feminina anda plena de restrições. E, depois da fase "mulher maravilha", o cansaço bateu.
O que fazer com os filhos que precisam da disponibilidade (não da presença física) em tempo integral da mãe, com os anos que passam e com a aparência física que perde o frescor, com os embates competitivos no campo profissional que desgastam e sugam energia, com as obrigações sociais, com a solidão habitada por multidões de "amigos"?
E agora, Maria?
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Uma pesquisa americana de sete anos, feita com mais de 1.000 crianças, sugere que, ao contrário do que se pensava, mães com empregos de tempo integral não prejudicam o desenvolvimento de seus filhos
Há seis anos, quando nasceu Mateus, primogênito da vendedora carioca Vanessa Moura, de 29 anos, ela resolveu ficar em casa. Durante os primeiros dois anos de vida do menino, largou o trabalho e se dedicou apenas a ele. Com Lucas, o segundo, que agora tem 10 meses, a história não se repetiu. Em janeiro deste ano, antes que ele completasse 4 meses, a mãe voltou à loja onde trabalha, num shopping da Zona Sul do Rio de Janeiro. A rotina é agitada: das 9 às 16 horas todos os dias, com o horário se estendendo até as 22 horas no período próximo às grandes datas comerciais, além de todos os sábados e de domingos alternados. Vanessa sente culpa. “É ruim saber que não estou podendo dar ao Lucas a mesma atenção que dei ao Mateus”, diz. Quem toma conta do bebê é a avó paterna, mas logo ele deverá ir para a creche. Nas folgas, a vendedora tenta compensar o tempo perdido dedicando a maior parte de sua atenção ao caçula. “Apesar da saudade e do remorso, admito que gosto de trabalhar”, afirma ela. “Quando fiquei em casa com meu filho mais velho, me sentia entediada sem as relações sociais fora de casa. A verdade é que ser mãe e trabalhar significa estar sempre dividida.”
Uma pesquisa divulgada na semana passada pode aliviar o sentimento de culpa de Vanessa. De acordo com um estudo da Universidade Colúmbia, de Nova York, divulgado na semana passada, o trabalho materno no primeiro ano de vida da criança não afeta significativamente seu desenvolvimento emocional ou sua capacidade de aprendizado no futuro. Três pesquisadores acompanharam 1.000 crianças em várias regiões do país por sete anos. Além do tempo e do universo pesquisado, o trunfo do estudo foi dar peso a aspectos que não foram considerados em avaliações anteriores, cujo resultado foi sempre negativo para o trabalho materno.
Desta vez, foram considerados o tipo de cuidado que a criança recebe na ausência da mãe, o ambiente familiar, as consequências de um orçamento maior na casa e o que o estudo chama de disponibilidade materna – o estado de espírito da mãe combinado à qualidade da atenção que ela dá ao filho quando estão juntos. O trabalho materno, concluíram os pesquisadores, tem desvantagens, mas também vantagens. Quando elas são consideradas em conjunto, o resultado é claro: mesmo quando a mãe trabalha em tempo integral, o desenvolvimento geral da criança não é comprometido. No Brasil, 76% das mulheres trabalham fora – e 43% delas são chefes de família.
No caso de Vanessa, seu salário garante uma renda familiar maior. Isso significa alimentação mais rica, conforto adicional, passeios nos fins de semana e viagens eventuais. Enquanto os pais trabalham, Lucas e Mateus ficam com a avó, que cuida também de outros dois netos, maiores. Vanessa elogia a sogra. “Ela sabe tudo de criança e brinca muito com eles. A própria convivência com os primos estimula o Lucas”, diz. Além disso, a independência financeira da mãe de Mateus e Lucas equilibra sua relação com o marido, que é comerciante e garante a maior renda da casa. O tempo ao lado dos filhos, por ser curto, ganha mais prazer e paciência, ela diz. “É raro eu descontar o estresse do trabalho neles. São momentos especiais.” Esse contexto equilibrado da vida de Vanessa pode, de acordo com a pesquisa da Colúmbia, compensar o convívio restrito com seu bebê.
Estudiosos do desenvolvimento dos bebês dizem que a pesquisa da Colúmbia é bem-vinda, por ajudar a inserir um novo cenário na questão da maternidade. “O trabalho da mãe não pode ser a única variável para medir o desempenho futuro da criança”, diz a psicanalista Isabel Kahn, professora da Universidade de São Paulo (USP) e vice-presidente da Associação de Estudos sobre o Bebê (Abebê).
Na semana passada, o Senado brasileiro aprovou a lei que torna obrigatória a licença-maternidade de seis meses. De acordo com o projeto, que ainda vai passar pela Câmara, os dois meses adicionais em relação à lei antiga passam a ser obrigatórios também para a iniciativa privada – para quem os dois meses adicionais eram facultativos. O principal argumento dos defensores da licença-maternidade de seis meses é a saúde do bebê: o aleitamento materno prolongado nutre melhor a criança e a protege de doenças. Não se trata de uma preocupação com o desenvolvimento intelectual e emocional da criança. A psicóloga Clotilde Rossetti-Ferreira, presidente do Centro de Investigação sobre Desenvolvimento e Educação Infantil da USP, é a favor da ampliação da licença. “A ausência da mãe trabalhadora pode ser compensada por várias coisas, mas existe um momento em que não se podem substituir os benefícios maternos: o aleitamento.” O risco é que a legislação protetora prejudique as mulheres no mercado de trabalho.
Embora enfatizem que o trabalho de tempo integral no primeiro ano de vida não atrapalha o desenvolvimento posterior da criança, os autores do estudo americano reconhecem que há risco de “perdas cognitivas suaves”. Em oito medidas de evolução de aprendizado tomadas entre os 3 e os 7 anos, as crianças de mães que trabalham fora o dia todo ficaram atrás em quatro delas. A defasagem é pequena, compensada por outros fatores, mas existe. A situação ideal, dizem os especialistas, é que a mãe trabalhe meio período no primeiro ano de vida do bebê – um ideal difícil de alcançar.
A enfermeira Melina Alves conseguiu um acordo no hospital em que trabalha para ficar com o filho até ele completar 6 meses. Hoje, Gustavo, de 1 ano e 4 meses, fica com sua avó materna enquanto a mãe trabalha. Melina é mãe solteira. “Quando se é mãe e pai ao mesmo tempo, a culpa é ainda maior”, afirma Melina. Abdicar do trabalho nunca foi uma opção. Seu dia a dia inclui plantões de 24 horas no hospital e outros em um posto de saúde.
A ênfase na qualidade do tempo passado com os filhos andava em baixa desde os anos 1980. Naquela época, quando a mulher entrou em massa no mercado de trabalho, as pesquisas sugeriam que o tempo com os filhos era menos importante do que a qualidade da troca afetiva. Foi a senha para as mulheres se dedicarem a suas carreiras. Nos anos 1990, porém, os estudos se voltaram para o outro lado. Métodos de avaliação do desenvolvimento cognitivo infantil – a capacidade da criança de aprender, memorizar e se relacionar com as pessoas e com o mundo – sugeriam que, longe da mãe, elas não alcançavam o mesmo desempenho. Trabalhar sem prejuízo para o bebê só depois dos 4 anos, afirmavam. A pressão sobre o trabalho “precoce” das mulheres que tinham filhos continuou até recentemente.
A pesquisa divulgada na semana passada confirma trabalhos que vinham sendo apresentados ao longo desta década. Em 2005, um estudo da Universidade do Texas já levava em conta a personalidade da mãe, a qualidade da paternidade e o ambiente familiar geral ao analisar o desenvolvimento da criança cuja mãe trabalha fora. Concluiu que a existência ou não de prejuízo dependia de todos esses fatores. Desta vez, o estudo da Colúmbia foi feito com 900 crianças de famílias brancas (não hispânicas) e apenas 113 crianças de famílias negras. O resultado, dizem os especialistas, aponta para a realidade da classe média – um universo social no qual o trabalho está mais relacionado ao prazer e à realização da mulher. A satisfação da mãe, diz o estudo, é influência importante na qualidade de seu relacionamento com o filho. Sempre se soube disso. Agora ficou mais claro.
OS RESULTADOS
Bebês cujas mães trabalham durante seu primeiro ano de vida em meio período não apresentam diferenças de desenvolvimento cognitivo ou emocional em relação aos bebês de mães que não trabalham.
Bebês cujas mães trabalham em tempo integral durante seu primeiro ano de vida correm risco de apresentar diferenças de desenvolvimento pequenas em relação aos bebês de mães que não trabalham ou que trabalham em meio período.
Os pesquisadores acreditam que essa defasagem é compensada por fatores como:
Há seis anos, quando nasceu Mateus, primogênito da vendedora carioca Vanessa Moura, de 29 anos, ela resolveu ficar em casa. Durante os primeiros dois anos de vida do menino, largou o trabalho e se dedicou apenas a ele. Com Lucas, o segundo, que agora tem 10 meses, a história não se repetiu. Em janeiro deste ano, antes que ele completasse 4 meses, a mãe voltou à loja onde trabalha, num shopping da Zona Sul do Rio de Janeiro. A rotina é agitada: das 9 às 16 horas todos os dias, com o horário se estendendo até as 22 horas no período próximo às grandes datas comerciais, além de todos os sábados e de domingos alternados. Vanessa sente culpa. “É ruim saber que não estou podendo dar ao Lucas a mesma atenção que dei ao Mateus”, diz. Quem toma conta do bebê é a avó paterna, mas logo ele deverá ir para a creche. Nas folgas, a vendedora tenta compensar o tempo perdido dedicando a maior parte de sua atenção ao caçula. “Apesar da saudade e do remorso, admito que gosto de trabalhar”, afirma ela. “Quando fiquei em casa com meu filho mais velho, me sentia entediada sem as relações sociais fora de casa. A verdade é que ser mãe e trabalhar significa estar sempre dividida.”
Uma pesquisa divulgada na semana passada pode aliviar o sentimento de culpa de Vanessa. De acordo com um estudo da Universidade Colúmbia, de Nova York, divulgado na semana passada, o trabalho materno no primeiro ano de vida da criança não afeta significativamente seu desenvolvimento emocional ou sua capacidade de aprendizado no futuro. Três pesquisadores acompanharam 1.000 crianças em várias regiões do país por sete anos. Além do tempo e do universo pesquisado, o trunfo do estudo foi dar peso a aspectos que não foram considerados em avaliações anteriores, cujo resultado foi sempre negativo para o trabalho materno.
Desta vez, foram considerados o tipo de cuidado que a criança recebe na ausência da mãe, o ambiente familiar, as consequências de um orçamento maior na casa e o que o estudo chama de disponibilidade materna – o estado de espírito da mãe combinado à qualidade da atenção que ela dá ao filho quando estão juntos. O trabalho materno, concluíram os pesquisadores, tem desvantagens, mas também vantagens. Quando elas são consideradas em conjunto, o resultado é claro: mesmo quando a mãe trabalha em tempo integral, o desenvolvimento geral da criança não é comprometido. No Brasil, 76% das mulheres trabalham fora – e 43% delas são chefes de família.
No caso de Vanessa, seu salário garante uma renda familiar maior. Isso significa alimentação mais rica, conforto adicional, passeios nos fins de semana e viagens eventuais. Enquanto os pais trabalham, Lucas e Mateus ficam com a avó, que cuida também de outros dois netos, maiores. Vanessa elogia a sogra. “Ela sabe tudo de criança e brinca muito com eles. A própria convivência com os primos estimula o Lucas”, diz. Além disso, a independência financeira da mãe de Mateus e Lucas equilibra sua relação com o marido, que é comerciante e garante a maior renda da casa. O tempo ao lado dos filhos, por ser curto, ganha mais prazer e paciência, ela diz. “É raro eu descontar o estresse do trabalho neles. São momentos especiais.” Esse contexto equilibrado da vida de Vanessa pode, de acordo com a pesquisa da Colúmbia, compensar o convívio restrito com seu bebê.
Estudiosos do desenvolvimento dos bebês dizem que a pesquisa da Colúmbia é bem-vinda, por ajudar a inserir um novo cenário na questão da maternidade. “O trabalho da mãe não pode ser a única variável para medir o desempenho futuro da criança”, diz a psicanalista Isabel Kahn, professora da Universidade de São Paulo (USP) e vice-presidente da Associação de Estudos sobre o Bebê (Abebê).
Na semana passada, o Senado brasileiro aprovou a lei que torna obrigatória a licença-maternidade de seis meses. De acordo com o projeto, que ainda vai passar pela Câmara, os dois meses adicionais em relação à lei antiga passam a ser obrigatórios também para a iniciativa privada – para quem os dois meses adicionais eram facultativos. O principal argumento dos defensores da licença-maternidade de seis meses é a saúde do bebê: o aleitamento materno prolongado nutre melhor a criança e a protege de doenças. Não se trata de uma preocupação com o desenvolvimento intelectual e emocional da criança. A psicóloga Clotilde Rossetti-Ferreira, presidente do Centro de Investigação sobre Desenvolvimento e Educação Infantil da USP, é a favor da ampliação da licença. “A ausência da mãe trabalhadora pode ser compensada por várias coisas, mas existe um momento em que não se podem substituir os benefícios maternos: o aleitamento.” O risco é que a legislação protetora prejudique as mulheres no mercado de trabalho.
Embora enfatizem que o trabalho de tempo integral no primeiro ano de vida não atrapalha o desenvolvimento posterior da criança, os autores do estudo americano reconhecem que há risco de “perdas cognitivas suaves”. Em oito medidas de evolução de aprendizado tomadas entre os 3 e os 7 anos, as crianças de mães que trabalham fora o dia todo ficaram atrás em quatro delas. A defasagem é pequena, compensada por outros fatores, mas existe. A situação ideal, dizem os especialistas, é que a mãe trabalhe meio período no primeiro ano de vida do bebê – um ideal difícil de alcançar.
A enfermeira Melina Alves conseguiu um acordo no hospital em que trabalha para ficar com o filho até ele completar 6 meses. Hoje, Gustavo, de 1 ano e 4 meses, fica com sua avó materna enquanto a mãe trabalha. Melina é mãe solteira. “Quando se é mãe e pai ao mesmo tempo, a culpa é ainda maior”, afirma Melina. Abdicar do trabalho nunca foi uma opção. Seu dia a dia inclui plantões de 24 horas no hospital e outros em um posto de saúde.
A ênfase na qualidade do tempo passado com os filhos andava em baixa desde os anos 1980. Naquela época, quando a mulher entrou em massa no mercado de trabalho, as pesquisas sugeriam que o tempo com os filhos era menos importante do que a qualidade da troca afetiva. Foi a senha para as mulheres se dedicarem a suas carreiras. Nos anos 1990, porém, os estudos se voltaram para o outro lado. Métodos de avaliação do desenvolvimento cognitivo infantil – a capacidade da criança de aprender, memorizar e se relacionar com as pessoas e com o mundo – sugeriam que, longe da mãe, elas não alcançavam o mesmo desempenho. Trabalhar sem prejuízo para o bebê só depois dos 4 anos, afirmavam. A pressão sobre o trabalho “precoce” das mulheres que tinham filhos continuou até recentemente.
A pesquisa divulgada na semana passada confirma trabalhos que vinham sendo apresentados ao longo desta década. Em 2005, um estudo da Universidade do Texas já levava em conta a personalidade da mãe, a qualidade da paternidade e o ambiente familiar geral ao analisar o desenvolvimento da criança cuja mãe trabalha fora. Concluiu que a existência ou não de prejuízo dependia de todos esses fatores. Desta vez, o estudo da Colúmbia foi feito com 900 crianças de famílias brancas (não hispânicas) e apenas 113 crianças de famílias negras. O resultado, dizem os especialistas, aponta para a realidade da classe média – um universo social no qual o trabalho está mais relacionado ao prazer e à realização da mulher. A satisfação da mãe, diz o estudo, é influência importante na qualidade de seu relacionamento com o filho. Sempre se soube disso. Agora ficou mais claro.
OS RESULTADOS
Bebês cujas mães trabalham durante seu primeiro ano de vida em meio período não apresentam diferenças de desenvolvimento cognitivo ou emocional em relação aos bebês de mães que não trabalham.
Bebês cujas mães trabalham em tempo integral durante seu primeiro ano de vida correm risco de apresentar diferenças de desenvolvimento pequenas em relação aos bebês de mães que não trabalham ou que trabalham em meio período.
Os pesquisadores acreditam que essa defasagem é compensada por fatores como:
- bons cuidados e estímulos do cuidador, seja avó, babá ou creche
- harmonia familiar
- boa qualidade nos tratamentos médicos
- segurança financeira
- maior sensibilidade da mãe, que se realiza no trabalho
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